sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Emoldurando a noite


Saudade [Chico César e Paulinho Moska]Maria Bethânia e Lenine

O sol desenha em dourado
O meio do dia, o sol a pino
A formiga amarela na folha
A flor do mato, aquela de soprão

O sol ruborizado horizontea
Tece nas copas das árvores
Doura no viés das folhas
Os ninhos de passarinhos

As borboletas abanam nas asas
O vento quente de noite
Acende o lume dos pirilampos
Estrelas de céu dos gafanhotos

Fico grilado de encanto
Guardo a noite em deleite
Num tempo das vacas gordas
Que as horas mamam famintas

A noite se embala em cadeira
As mariposas olham de sapo
O preá escuta de coruja
A varanda balança de poesia

Amanso o teu pé de sono
A boca sussurra de ouvido
Em lua que pisca de meia
Te durmo de sonho acontecido

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Entre a cidade sim e a cidade não

Zima, Rússia [imagem internet]
Рождеством Христовым и с Новым годом

Sou um comboio rápido
que há muitos anos vai e vem
entre a cidade Sim
e a cidade Não.
Os meus nervos estão tensos
como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim.

Tudo está morto e assustado na cidade Não.
É como um embrulho feito de tristeza.
Dentro dela todas as coisas franzem a testa.
Há medo nos olhos de todos os retratos.
De manhã enceram com bílis o soalho.
Os sofás são de falsidade, as paredes de miséria.
Nunca te darão nessa cidade um bom conselho,
nem um ramo de flores, nem um simples aceno.
As máquinas de escrever batem, com cópia,
a resposta:
"Não-não-não... não-não-não... não-não-não..."
E quando enfim se apagam as luzes
os fantasmas iniciam o seu lúgubre bailado.
Nunca, ainda que rebentes, arranjarás bilhete
para fugir da negra cidade. Não.

Ah, mas a vida na cidade Sim é um canto de ave.
Não tem paredes a cidade, é como um ninho.
As estrelas dizem que as acolhas nos teus braços.
E sem vergonha seus lábios pedem teus lábios,
num brando murmúrio: "São tudo tolices..."
A flor provocante implora que a cortes,
os rebanhos oferecem o leite com seus mugidos,
ninguém tem ponta de medo.
E aonde queiras ir te levam num instante comboios,
barcos, aviões,
e com um rumor antigo vai a água murmurando:
"Sim-sim-sim... sim-sim-sim... sim-sim-sim..."
Mas às vezes é certo que aborrece
ser-me dado, afinal, tudo sem esforço
nesta cidade Sim, deslumbrante de cor.

É melhor ir e vir até ao fim da minha vida
entre a cidade Sim
e a cidade Não!
É melhor ter os nervos tensos como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim!

Ievgueni Ievtuchenko
in Ievtuchenko em lisboa (1967)

http://canaldepoesia.blogspot.com.br/2009/06/ievgueni-ievtuchenko-entre-cidade-sim-e.html

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Boas Festas!


Desenho de Giz -[João Bosco e Abel Silva] João Bosco

Se o sorriso é breve
E a vida mais breve ainda
Se a vida é leve
E o sorriso mais leve ainda

Pois, seja a vida breve e um sorriso leve
Mesmo que breve, sejas leve e sorria

Boas festas e um Feliz Natal!



Nasce um rio dentro do amar


Quando O Amor Acontece - [João Bosco e Abel Silva] João Bosco
Faixa composta para o álbum 'Ai Ai Ai de Mim' (1987)

Encontro o lado molhado de noite
Perdi na palavra o nome de amar
Morro a sua nudez de sereia
Na aurora o trevo de seu luar

Dentro de mim tem um rio
Fiz-me tarde e findo anoiteço
Nasço de encontro das águas
Emudeço a memória que teço

O amor tem aladas rimas
Conhece o sonho acordado
Quando usa as asas de noite
Cobre o sonhar das lágrimas

O dia sempre chega de noite
Quem ama um dia, n'outro chora
A noite, sussurra-se o terço e ora
Seremos todos, um dia, o embora

O carinho afaga os passarinhos
A saudade mora no olhar de cão
O silêncio brilha o desejo de sol
Adormecido na palma de sua mão

A noite se descobre de pele
A paixão agita sobre as águas
Do silêncio infinito das pedras
Acorda o amor de suas mágoas

Nasce um rio dentro do amar
O verbo delira no curso de rio
De permitir-se à vida, nasce o mar
Em auroras de possíveis sonhar

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Gosto mesmo é de virar nuvem


Mente Ao Meu Coração [F. Malfitano, Fco Malfitano e Pandia Pires] por Maria Rita

Estou sofrendo de crepúsculo de letra
Deve ser de segredo de caracol
Fico de espiral escrevendo de cetra
Sou feito de nariz de longo vento

Vivo tentando ser o gosto de saudade
Embaraço os teus cabelos de milho
As borboletas brilham de maioridade
Reclamam que os girassóis giram de chuva

Gosto mesmo é de virar nuvem
Escuto música da árvore de sanha
Deito de passarinho de adoçar frutas
Amarro o tempo de teia de aranha

Sou um prego de parede branca
O que segura a tua imagem de cera
Um rio de vidro passa cortando de bera
Atrás da tua lembrança de mil pedaços

Um colibri leva as asas de ver-te
Guarda o lume de uma esmeralda
Os gerânios transpiram de toda sede
Pela doce saliva que da sua boca verte

A morte se viu e cobriu-se de vida
Agora dorme-se no sono de garça
Seu corpo faz que brilha de meia lua
Da água o peixe olha e boia de farsa

Auroras entre as vespas não é tudo
A vida de boa ou má sorte afunda
O antes, durante e depois do ludo
Todo formigueiro lidará com a morte

Escuto música da árvore de manha
Deito de passarinho de adoçar frutas
Amarro o tempo de teia que assanha
Gosto mesmo é de virar nuvem

.


Trajetória [Serginho Meriti] por MARIA RITA

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tem gente qualquer que afrouxa


Dindi [Tom Jobim e Aloysio de Oliveira] por Jane Monheit
September 23rd, 2002... It was a particularly beautiful and sultry evening--and, high atop Manhattan, the romance of the legendary Rainbow Room was in all its glory--a truly perfect match for the magnificent voice and presence of Jane Monheit.

Torço o rio até que as gotas corram
Indiferentes, morrem de nada
Só podem estar doentes de rio seco
Como uma doença que dá de olho
Gota de lágrima seca de horizonte
Fica vermelho de tanto fogo de céu  

Viver é, antes de tudo, uma morte
Antes de ser pedra, nunca foi água
Era poeira de sola, um pé andando à toa
Perseguia a sombra de maré de peixes
A morte descobriu a água no olho de peixe
Desde então, a morte se descobriu na vida

Essa abelha dorme na flor de aurora
O orvalho está escondido de lua
O amanhecer sofre de ontem
Ninguém quer envelhecer um dia
Tem gente qualquer que afrouxa
A minha roupa de insônia que disse

Uma voz pequena virou mulher
(Tem voz pequena que vira o bicho)
Antes era um vento cheio de curvas
Gostava de ser folha solta dançando
Sofria presa de ponta de galho
Nem cantava de bico de passarinho
Depois do primeiro voo virou asa

Foi a unha encravada que disse
Que a vida dói de quem tropeça
Tem ideia que pousa em cabeça
Parece dois dedos de falatório
Desenha a letra "V" de vencido
Foi ver era caroço de encruzilhada

‎Bom mesmo é fingir de carroça
Mas só funciona na frente dos bois
Precisa chover muitos grãos de terra
A estrada revira em tapete de nuvem
Se ajeita no balançar de pensamento
Fica um gosto de nada solto de vento

A vida tem um gosto que só o doce sabe
O amargo vive perguntado de azedo
Será que o azul abriu o horizonte?
Se quem é vivo anda dormindo
O sonâmbulo acordado de sonho
O dia amanhece só de anoitecido

O fim do amor começa de eternidade
Teima de sofrer de tudo aguenta
O cupido disse: o tempo sofre de batata quente
Tem amor grande de caber o impossível
No nada cabe sempre duas pessoas
O grande encontro é do tamanho de um fim


  

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Coisificando a coisa


AMANHÃ [Composição: Guilherme Arantes]por Guilherme Arantes

De súbito, fez-se a coisa
Se soubesses as coisas que senti
Certamente, muitas coisas seriam diferentes
Algumas coisas poderiam ser evitadas

Tantas coisas que realizaríamos juntos
Fez-me pensar nas coisas que passamos
Vos digo daquela coisa que sentíamos
Sei que eram coisas do nosso tempo

Entre tantas outras coisas que fomos
Só nós sabemos das coisas que vivíamos
As outras coisas vivem outras coisas
Algumas, entre tantas, coisas boas, coisas ruins

Seu olhar sempre traduzia aquela coisa
Aquela coisa só tua de ser aquela coisa
Nós tínhamos tantas coisas em comum
Mas, sei de outras coisas nem tanto

Sei que falo da coisa passada
Coisas que nem devemos lembrar
As coisas de hoje são diferentes
Sinto que as coisas estão mais frouxas

As coisas não estão mais palpáveis
As coisas da vida se desmancharm no ar
As coisas que gostamos passam tão rápido
Hoje sou uma coisa, amanhã sou outra coisa

Alguma coisa faz-me ficar em casa
Nem consigo sair para fazer as coisas
Dá-me um pavor de todas as coisas
Um temor de todas as coisas ruins

Sei que a coisa está pegando
Se ficar a coisa pega,
Se correr a coisa coisa
Pensar na coisa dá até um frio

Daqui há pouco a coisa passa
As coisas melhores são eternas
As coisas que sinto passam
A única coisa que sei e que não sei

Tudo é coisa de deixar acontecer
Coisa de hoje, coisa de futuro
Coisa que hoje serve, amanhã é outra coisa
O que mais importa mesmo é a coisa que sou  

A coisa é mais embaixo
Coisas de rir
Coisas de chorar
Entre tantas coisas de amar

Só sei que foste a coisa mais linda
Não te trocaria por nenhuma coisa
Porque foi a coisa mais importante
A coisa que mais sinto falta entre outras coisas  

Algumas coisas dão prazer
Outras coisas nos machucam
Mas no fim... sabes de uma coisa?
Na coisa cada coisa tem o seu lugar

Amanhã a coisa vai ser diferente

domingo, 8 de dezembro de 2013

Na superfície lisa da indiferença


A moça do Sonho [Chico Buarque e Edú Lobo] por Maria Bethânia

Num sentimento de eco profundo
Percorro sem norte em superfície gélida
Meu tempo é do contratempo
Nele habita o desamor do mundo

Mora em mim o homem vazio
Se paro e reflito, afundo e congelo
Meu tempo tem o tempo do vão
Percorre na lâmina o corte frio

Não há tempo de sentir a falta de mim
Meu pobre tempo nem tempo tem
De mais tempo para a ignorância fértil
Sobrevive na escassez do próprio fim

Recrio a tristeza nas próprias dores
Descrentes, somos o medo de ser feliz
Meu tempo é de um sobretempo
Não consegue amanhecer os amores

A viva inércia do conhecimento redutor
Ressoa na solidão silenciosa de ser livre
Reconstrói o corpo num deus de plenitude
Incessante novo sem tempo de ser amor

A nudez num espaço sem sentido
Sobrevive da vigila dos laços frouxos
Meu tempo é de rasos desejos
É a palavra no consumo emudecido

Obscureço o real em outros gostos
A insaciável mudança da existência
Meu tempo desconstrói o sagrado
Clarifica-se em profanos rostos

Guardo-me no espelho de narciso
Sou o apocalipse e a temida medusa
Não me faço dos olhos dos outros
No tempo vivo sou o impreciso

No encontro de outra sobrevivência
Meu tempo será a condição do outro
Será a identidade aberta e solidária
Na pulsação replicante da convivência

No recomeço que uma vida revela
Num deus real de um novo paradigma
Na face aberta pela condição do outro
O tempo será daquele que o sujeito zela

Se o meu tempo criou o tormento
Se tudo confinas à indiferença
Se só reconheces na condição humana
Os horizontes breves de cada momento

Na flor de plástico um eternizar
Sou todo o sólido que se desfaz
No abandono dos próprios sentidos
Sou o medo coletivo de amar

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O escritor que "iluminou a poesia portuguesa"


O que tinha de ser  [Vinicius de Moraes e Tom Jobim] por Caetano Veloso

[Não posso adiar o amor para outro século]

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

O Grito Claro, 1958
António Ramos Rosa
http://antonioramosrosa.blogspot.pt
O escritor que "iluminou a poesia portuguesa"
Poesia Biografia Desenhos Artigos Bibliografia
80 anos de poesia
António Ramos Rosa - fotografia de joão silva Blogspot

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O beijo da fruta vermelha



Bau Raquel Cape Verdean Melancholy  - Born on the Cape Verdean island of Sao Vicente, Rufino Almeida (aka Bau, which is the Portuguese word for box) was raised by a professional luthier who taught him both to build and to play the guitar, the violin, and an indigenous four-stringed instrument called the cavaquinho, all of which he mastered at a young age. During his tenure as musical director for singer Cesaria Evora in the 1990s, Almeida found time to record several albums of his own, highlights of which are compiled on Cape Verdean Melancholy for the U.S. market to coincide with the release of the Pedro Almodovar film Talk to Her (which features the album's lead track, "Raquel," in its soundtrack).


Quando abres a manhã
Na janela do teu quarto
O dia nasce na tua luz tão mansa
As flores te olham do jardim
Até que as tuas vestes caiam

Na pele da tua nudez aflorada
Ao reconhecê-la do mesmo caule
Se do mesmo pólen te principias
As águas deságuam dos peixes
E criam as correntezas dos rios

As folhas agitam o tempo do medo
Das mãos da criança esquecida
O dia envelhecido feito brinquedo
No vestido da boneca descolorido
Na prateleira emudecida de lembranças

Do alto das copas das árvores
D'outros sonhos a mulher desperta
Flui secreta a tua intimidade
Na beleza misteriosa do teu mundo
Para o segredo dos oceanos

Na polpa macia dos lábios
No beijo da fruta vermelha
Semeia a natureza do mesmo encanto
Degusta na saliva o único desejo
No sabor doce de um beijo

Ao longe os suspiros desmaiam
Nos olhares passantes dos distraídos
Nos ventos que cultivam no jardineiro
O espanto que sopra dos passarinhos
Pousando no corpo o desejo de ser mulher

[Sssssss... Morde Evinha! A maçã emagrece.]


sábado, 16 de novembro de 2013

Na dança das sombras [Butoh dance]


The Dance of Shadows (Hanami - Butoh dance)  
Este video mostra cenas do filme alemão "Cherry Blossoms - Hanami", um poema bonito e delicado sobre o luto.

No chão que me petrifico
No ar que me faço nuvens
Na montanha que me rarefaz
Na árvore em que me transplanto

Nos pássaros em que nasço o voo
Dos muros inertes, no olhar das ruas
Nas vidas que o mundo gira
Gira o mundo de todas as sombras  

Luz e sombra em perfeita geometria
Refletem o meu sentimento
No mesmo chão que germino
Transcendo em sombras de própria vida

Sombras sem gestos do tempo
Num compasso do sentimento
Na viva dança das sombras
Nasço de um amar crescente

Sombras de um infinito celeste
No movimento de todos os sóis
Transcendo do todo perene
Na sombra de todas as sombras

Mudos gestos de única voz
Bailado de sombras sem corpo
Rompe o limite da ausência
Na dança em único verso  
 
Nos passos que nos faz dança
Acima da vida e da morte
No lume se une as sombras
No enlevo espaço da alma

No silêncio do tempo
O efêmero anonimato
Nem sagrado, nem o profano  
Sou a alegria e sou o trágico

Abandono as minhas próprias guerras
Meus fantasmas de ódio e de dor
Desfaço-me da injustiça e das paixões
Sou apenas a minha sombra sem corpo

Danço nas sombras celestes
De todas as luzes eternas
Na sombra que existe em ti
Em mim a tua infinita sombra

Tem uma sombra dentro
Todo mundo tem
Tem em todo mundo
Uma sombra dentro de nós

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A soberba e a inveja


Meu Bem Querer(Djavan] - Saulo Fernandes, Blick Bassy e Banda Eva
BlickBassy.com  Cameroonian Afro blue soul singer-songwriter ,Human Rights Activist,militant.
https://twitter.com/blickbassy

Se ser o melhor entre os piores lhe basta
Se acalentas essa razão envaidecido 
Lembre-se que entre os humanos tudo passa 
O tempo passa e morre de inveja do eterno


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nas folhas do teu jardim


Autumn Leaves-Joseph Kosma [by Natalie Cole]

Da tua mão nasce o voo
Do pássaro que criastes
Voas nos sonhos intocável
A primavera do teu corpo

Absorvo na tua pele morna
A suave fragrância das flores
Sangra-me a dor na distância
Tempo agudo dos teus espinhos

O silêncio que me cala
No calor do leito que levantas
No teu amanhecer adormeço
Dos meus sonhos que despertas

No etéreo sangue que nos une
Enrubesce o desejo dos teus lábios
Na boca do mistério um chão de folhas
Um vestido caído sobre os pés

Afinidades do acaso das almas
No futuro das vidas passadas
Tornar-se oceano de dois corpos
Adjacentes amores que deságuam

Desvendando as palavras do corpo
Ser o peito que tua cabeça repousa
Os olhares que espiam as folhas
Na árvore que respiramos

Absorvendo na terra a água da chuva
O sabor doce e o desejo da fruta
No sublimar em mesmas raízes
O semear de um mesmo fruto

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Paulinho Tapajós - compositor, cantor, produtor musical, escritor e arquiteto brasileiro.


http://www.paulinhotapajos.com.br/home.php
Bem vindo ao site oficial do compositor Paulinho Tapajós.

Navegue pelo site através dos links disponíveis no menu superior ou no rodapé de cada página.
Clique ou acesse o site:
Clique aqui para ouvir (flash) o CD Preparando a Canção!  
http://www.paulinhotapajos.com.br/cd_preparando_a_cancao.php
Clique aqui para ouvir (flash) o CD Viola e Violão!
http://www.paulinhotapajos.com.br/cd_viola_e_violao.php
Clique aqui para ouvir (flash) o CD Coração Poeta !
http://www.paulinhotapajos.com.br/cd_coracao_poeta.php

Paulo Tapajós Gomes Filho, mais conhecido como Paulinho Tapajós (Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1945 — Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2013)1 2 foi um compositor, cantor, produtor musical, escritor e arquiteto brasileiro.
É filho do compositor, cantor e radialista Paulo Tapajós e irmão do compositor Maurício Tapajós e da cantora Dorinha Tapajós. [RJ 17/08/1945 - 25/10/2013]


Andança -  Paulinho Tapajós ( por Beth Carvalho & Golden Boys]

sábado, 19 de outubro de 2013

Centenário de Marcus Vinicius Cruz de Mello Moraes

Brasil, 19 de outubro de 2013
Porque hoje é sábado.

Porque hoje é o Centenário de Marcus Vinicius Cruz de Mello Moraes


Vinicius de Moraes Ao Vivo no Canecão, de 1977, em que o Poeta recita o poema Dia da Criação, com acompanhamento musical em jazz.
Dia Da Criação

  I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

 II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

                                                                      ~*~^~*~^~*~

Se todos fossem iguais a você - Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Vai tua vida
Teu caminho é de paz e amor
A tua vida
É uma linda canção de amor
Abre os teus braços e canta
A última esperança
A esperança divina
De amar em paz

Se todos fossem
Iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol, como a flor, como a luz
Amar sem mentir, nem sofrer

Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você

                                                                   ~*~^~*~^~*~

Para Viver Um Grande Amor - Vinicius De Moraes e Toquinho

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor, preciso
É muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
É ser um homem de uma só mulher
Pois ser de muitas - poxa! - é pra quem quer
Nem tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há de fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor direito
Não basta apenas ser um bom sujeito
É preciso também ter muito peito
Peito de remador
É sempre necessário ter em vista
Um crédito de rosas no florista
Muito mais, muito mais que na modista
Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor, é muito
Muito importante viver sempre junto
E até ser, se possível, um só defunto
Pra não morrer de dor
É preciso um cuidado permanente
Não só com o corpo, mas também com a mente
Pois qualquer "baixo" seu a amada sente
E esfria um pouco o amor
Há de ser bem cortês sem cortesia
Doce e conciliador sem covardia
Saber ganhar dinheiro com poesia
Não ser um ganhador
Mas tudo isso não adianta nada
Se nesta selva escura e desvairada
Não se souber achar a grande amada
Para viver um grande amor!

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia 

                                                                   ~*~^~*~^~*~

Soneto do amor total - Vinicius de Moraes

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

                                                                   ~*~^~*~^~*~  

Soneto da Fidelidade -  Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

                                                                   ~*~^~*~^~*~  
                                                                       
1913
Nasce, em meio a forte temporal, na madrugada de 19 de outubro , no antigo nº 114 (casa já demolida) da rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, ao lado da chácara de seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz. São seus pais d. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, este, sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes.

Graduado em Direito, em Letras no Santo Inácio, agraciado pelo Conselho Britânico com um curso de Língua e Literatura Inglesas na Universidade de Oxford - Magdalen  College.
Entre tantas qualidades:  Diplomata, Poeta, Romancista, Cronista, Crítico cinematográfico, Compositor. Vindo de Paris em 1956, onde trabalhava no roteiro do filme Orfeu Negro,  convida Antônio Carlos Jobim para fazer a música do espetáculo Orfeu da Conceição, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, iniciando com ele a parceria que, logo depois, com a inclusão do cantor e violonista João Gilberto, daria início ao movimento de renovação da música popular brasileira que se convencionou chamar de bossa nova.
Centenário de  Marcus Vinicius Cruz de Mello Moraes
Canto de Ossanha ["eu sei, Vininha. o ‘amor’ só é bom se doer."]
Saravá!  Vida eterna ao Poeta!
                                                                    ~*~^~*~^~*~  

Berimbau /Canto de Ossanha-Vinícius de Moraes e Baden Powell [Vínícius, Toquinho, Miúcha, T Jobim]

Berimbau 
Baden Powell e Vinicius De Moraes

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará

Se não tivesse o amor(2x)
Se não tivesse essa dor(2x)
E se não tivesse o sofrer(2x)
E se não tivesse o chorar(2x)
Melhor era tudo se acabar(2x)

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais do que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará
                                                                     ~*~^~*~^~*~
Canto de Ossanha
Baden Powell e Vinicius de Moraes

-"O canto da 
E mais misteriosa das deusas
Do candomblé baiano
Aquela que sabe tudo
Sobre as ervas
Sobre a alquimia do amor"

Deaaá! Deeerê! Deaaá!

O homem que diz "dou"
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz "vou"
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz "sou"
Não é!
Porque quem é mesmo "é"
Não sou!
O homem que diz "tou"
Não tá
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!...

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de ...

Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...(2x)

                                                                     ~*~^~*~^~*~
VINICIUS
DE MORAES
http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br
"Meu tempo é quando"
Poética - Nova Iorque - 1966
Vida e Obra
 

A que há de vir
[Rio de Janeiro]

Aquela que dormirá comigo todas as luas 
É a desejada de minha alma. 
Ela me dará o amor do seu coração 
E me dará o amor da sua carne. 

Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo 
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios 
Ela é a querida da minha alma 
Que me fará longos carinhos nos olhos 
Que me beijará longos beijos nos ouvidos 
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso. 
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas 
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego 
Ela abandonará filho e esposo 
Abandonará o mundo e o prazer do mundo 
Abandonará Deus e a Igreja de Deus 
E virá a mim me olhando de olhos claros 
Se oferecendo à minha posse 
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor 
Cheia de uma pureza luminosa. 
Ela é a amada sempre nova do meu coração 
Ela ficará me olhando calada 
Que ela só crerá em mim 
Far-me-á a razão suprema das coisas. 
Ela é a amada da minha alma triste 
É a que dará o peito casto 
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração 
Ela é a minha poesia e a minha mocidade 
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma 
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele. 

Ela é o amor vivendo de si mesmo. 
É a que dormirá comigo todas as luas 
E a quem eu protegerei contra os males do mundo. 

Ela é a anunciada da minha poesia 
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos 
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.

http://www.viniciusdemoraes.com.br/site/rubrique.php3?id_rubrique=2
                                                                 ~*~^~*~^~*~  

"Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes", programa produzido pela TV Cultura em 2009, traz participações de Carlos Lyra, Toquinho, Fernando Faro, Anna Luisa, Margareth Menezes, Paula Mirhan, Chico Buarque, Tom Jobim, Poeta Ferreira Gular, Antonio Cândido de Mello e Souza entre amigos.


Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 1/5
                                                                      ~^~^.^~^~

Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 2/5
                                                                       ~^~^.^~^~

Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 3/5
                                                                       ~^~^.^~^~

Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 4/5
                                                                        ~^~^.^~^~

Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 5/5 (Final)
                                                                        ~^~^.^~^~

Soneto de Separação - Vinícius de Moraes

Soneto De Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

                                                                           ~^~^.^~^~

Tomara (Buenos Aires 1970) - Vinícius de Moraes

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara 
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

                                                                        ~^~^.^~^~

A Felicidade - Vinícius De Moraes e Tom Jobim

Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou da jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.

A felicidade é um coisa louca
Mais tão delicada, também
Tem flores e amores de todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo isso ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato sempre dela muito bem.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

                                                                        ~^~^.^~^~

Mais um Adeus - Vinicius de Moraes por Toquinho e Maria Medalha

Mais um adeus
Uma separação
Outra vez, solidão
Outra vez, sofrimento
Mais um adeus
Que não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar

[Contraponto]

Olha, benzinho, cuidado
Com o seu resfriado
Não pegue sereno
Não tome gelado
O gim é um veneno
Cuidado, benzinho
Não beba demais
Se guarde para mim
A ausência é um sofrimento
E se tiver um momento
Me escreva um carinho
E mande o dinheiro
Pro apartamento
Porque o vencimento
Não é como eu:
Não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar

                                                                         ~^~^.^~^~

Eu Sei Que Vou Te Amar-Vinícius de Moraes e Tom Jobim-[Maria Creuza, Vinícius de Moraes e Toquinho]

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Obrigado Eterno! - Parabéns ao Poeta - Vinícius de Moraes [19/10/1913-19/10/2013]

sábado, 12 de outubro de 2013

Para morrer de um poema qualquer


Tema para Ana - T. Jobim por R. Sakamoto & J. Morelenbaum

A imagem do espelho me desconhece
Vejo-me no velho abstrato
No desbotado das tintas de uma imagem
A vida tem o lume do imaginário

D'um corpo em tempo de formas vagas
Vivi de paixões sedentas de fogo e sombra
Num desejo de absoluto silêncio profano
Inscrevi-me no tempo da palavra eterna

Para morrer de um poema qualquer
Enxuguei o suor do vento com as cores do tempo
Com uma visão de um olho frio
Vi o silêncio das águas

Andei o caminho das pedras cansadas
Nas sombras dormi as margens de um rio
Esperei o segredo para envelhecer-me de ser mar
Pensei os embranquecidos cabelos

Guardei a memória das proibidas palavras
Com o mistério encobri todas as paixões
Não habito a casa e nenhum estar
Sou o silêncio do tempo que passa pelas cidades

Na noite dos deuses


Chanson pour Michelle - T. Jobim por Ryuichi Sakamoto

Um grito atravessa a noite surpresa
A indiferença acaricia o escaravelho      
Em contínua caminhada se prolonga
Rola o seu tempo em seu mistério

Para que os mortos descansem
O motivo da morte
E possam morrer em paz

O tempo desfolha da inocência
Tormentos de um desejo imortal
Instantes que assombram um céu
Das últimas desesperanças

Assistem as vaidades que em mim respiram
Digeridas na ilusão das migalhas
Caídas da estreita mesa da sobrevivência

Renovo o tempo em que me invento
Renasço das cinzas num vazio de nada
O vazio que ressoa da alma em que me principio
No sentido da vida que se faz diante da morte

Nasço da fé dos deuses e do vento
Em descrenças de um feliz viver
Numa felicidade que nasça por mim

Invento a fé no distrair do tempo
Recrio-me na brancura da própria idéia
Incendeio-me à deriva dos risos soltos
Na louca beirada de cinzentas montanhas

Das minhas profundas guerras a sós
Numa língua danço as palavras no fogo  
Tal qual monólogo de algum desperto

Um medo implacável de me habitar
No impossível querer morrer
Sem a canção de festa, o bater de braços
Sem a fé cega de escuro, um amor perdido do amor

O luar insinuando luas de palavras suspensas
Palidez rarefeita dos meus delírios sonhados
Nas incessantes metamorfoses de libertação

Aborto o deserto de um quase alvorecer  
Bailo a dança noturna dos deuses
Uma criança cantalora na árvore do silêncio
E balança na palavra em que não existo

Nada se cria, apenas respira e recomeça
Numa inocência aberta de uma fonte de água fria
Renasço de um útero estéril de amanhã

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Versos imprometidos


Eleni Peta performing Astor Piazzolla's "Oblivion" (J'oublie)
On stage with Al Di Meola, Panagioti Margari and Fausto Beccalossi

Respiram sonolentas vagas
Sopram na pele a calmaria
A chuva cobre o oceano
O sabor do solitário Deus

Cadentes solidões de estrelas
Cravam o azul de amar profundo

O corpo queda em terra fresca
Esvai os versos que nunca não foram
Das emoções imprometidas
A exaustão dos olhos do tempo

O pecado clama a inocência
Na boca dos condenados

Saudade que reluz na linha d'água
O brilho adolescente dos sonhos
Lembranças de porvir enluaradas
Na ingenuidade dos inocentes

Angústia ácida que corrói nas veias
Na asfixiante aridez a solidão das eras

Amores contam estórias
Modestos sonhares de eternidade
D'uma felicidade refenecida
De um infindo olhar de riso

O tempo não se apaixona
Arrasta impiedoso os arrepios da pele

Sonha o voo de outras estórias
Voltar por caminhos nunca idos
Num descobrir o inatingível
Amar a face oculta da lua

Desbravadas metáforas desnudas
Em surpresa abismam enlouquecidas

Pousa a pena na palavra
Espalmadas mãos de alçar-se ao voo
Voar como se fora o eterno
Pousar memórias de outro ser

Amar magias de eterna cruz
A luz reluz dos amores líquidos

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

DEUS VÊ TALVEZ COM AS PÁLPEBRAS DESCIDAS

Deus vê talvez com as pálpebras descidas 
e assim vê o nosso espírito como um halo ténue
ou uma sombra que estremece mas contínuamente se levanta
É ele que sustenta a nossa integridade vertical
com a sua imóvel respiração incessante

Que dificil é ser o alvo desta atenção divina
como se fôssemos apenas o aro vazio de um puro abandono
Mas é nesta entrega passiva que nós somos
mais do que órfãos de um útero materno
e nos erguemos à transparente pedra
da nossa renovada identidade

Só nesse cimo branco renascemos livres
porque nos entregamos à silenciosa respiração
do ser divino que atravessa o nosso sono
e faz resplandecer a nossa incerta ignorância

António Ramos Rosa, In "O deus da incerta ignorância seguido de Incertezas ou evidências", 2001 
Hoje, nesta segunda-feira em Lisboa, aos 88 anos, morreu um Poeta. 
Viva para sempre a sua obra.
António Ramos Rosa, natural de Faro, um dos nomes cimeiros da poesia contemporânea, escrita e dita em Língua Portuguesa. Autor de uma das obras poéticas mais extensas e marcantes da poesia portuguesa contemporânea, juntou-se àqueles em quem poder não tem a Morte. Possa a sua poesia continuar a desinquietar-nos, a não nos deixar descansar em Paz. 
Hoje morreu um Poeta. Que a nossa inquietude agite e dê vida à sua Obra. 
Para que possa o Poeta ficar em Paz.

A Pedra 

"Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio. 
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra."

António Ramos Rosa (1924-2013), uma vida dedicada à poesia

http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-antonio-ramos-rosa-1606787


No encantar das estrelas


Eleni Peta performing live "Cancão do Mar" of Ferrer Trindade and Frederico de Brito with The Plucked Strings Orchestra of the Municipality of Patras - GREECE

Quando a noite pousa nos pássaros
No encantar das estrelas que vestes
Repousas nas tuas asas de leito
Num confronto ao trono dos deuses

O Olimpo de purgatório dos onipresentes
Na existência crua dos semideuses

Ao peito acolhes nos braços a noite 
Sois o exílio dos laços maternos
Sobre o manto da solidão de todos
A nua existência sobre o travesseiro

Cedo ou tarde, a sorte ou a morte
Num sonho à deriva que lhe vem à boca 

Reacendes das cinzas o minuto de fogo
Nas palavras recolhidas do jogo
Do indecifrável mistério da vida
Resta-nos nada, resta-nos tudo 

Resta-nos quase o que poderíamos ser
Sem antes morrer com a perfeição dos mortos

Pensamentos que tudo arrastam
Devastando as dunas e os oásis
Na quietude calada da fronha
As lágrimas absorvendo as dores

Pedaços de sonhos dispersos no ser
O que a vida observa e não responde  

Sonhos da ânsia de presentes deleites
Reféns do delírio de outras lembranças
No desejado sabor doce de outros frutos
No passado intocado das copas das árvores

Não morrem do sonhar como destino
Os sonhos que sonhara sonhar em sonho

O silêncio teima em pulsar o coração
Na respiração lenta do vento
Acalentas nas mãos o tato descrente
Na presença de outro corpo que inventas

Intocada carência na carícia da alma
No diálogo silencioso da mulher que te fazes

Agora não és a mulher que adormece 
De vastos oceanos e imensas vagas
Num inventar de sonolentas carícias
Apenas dormes no despertar da criança

Sobre o mudo criado os ponteiros observam
Na janela do sonho o amanhecer do novo dia    

domingo, 1 de setembro de 2013

En la poesía de ensueño [No sonho da poesia]


Yesterday I Heard the Rain

Sin tus partes del cuerpo que me miran
No en sus curvas me va a perder
A despecho de su piel perseguir los labios
Tú no entrarás en los senos se convierten amante

No los momentos sublimes de su sudor
Tampoco se ve la transparencia de sus prendas
Lo haré ni ceguera en tu acantilados
La caída profunda en sus deseos

Mi delicadeza no se toque la cara
En contacto piel suave se negará
Los dedos se resisten al tacto de seda
En el cabello seducido no quedarei

No es el temblor de su cuerpo desnudo
El debilitamiento de la estructura de mi ego
En el suspiro no respire placeres
Calo mi grito silencioso de tu vientre

No entregar a sus labios húmedos
Mi deseo gusto voraz boca
No saciar su saliva en mi desierto
Muere en los bordes de su fresco  oasis

No los toma el sabor de la piel
El sabor de la sal que me nutren
Ni el olor caliente que provocas
En el viaje de fuego a través de su cuerpo

No sé el rosa ansiedades
En tu vientre del feliz floreciente
El secreto de tu amante febril
La pureza ni el sabor ardiente

No me toques con tu magia
No me seducirá con sus susurros
Yo soy todo lo contrario de sus deseos locos
Todavía és sueño despierto en la poesía

domingo, 18 de agosto de 2013

Indecifrável Saudade


Maria Bethânia e Lenine - Saudade[Chico César e Paulinho Moska]

Apagar a imagem de alguém
Aquém perdida no tempo
Desaparecer do eu parado no vento
Do amor que ficou sem ar

Esquecer a alma do corpo inerte
Fechando o sorriso acanhado
Colorir a tua pele esmaecida
Levantando-te dessa pedra fria

Anestesiar a dor da ausência
Festejando essa mágoa "solitatis"
Quebrar os ponteiros do relógio
Inventando a máquina do tempo

Misturar todos os sentimentos
Sendo o teu "achados e perdidos"
Recolher na trena todas as distâncias
Ligando com pontes todos os oceanos

Doar-te meu coração e transplantar-me o teu
Habitando-te em momentos infindos
Eternizando-me em teu corpo "fatum"
Ser teu  porto seguro da nostalgia

Queimar todas as iguarias e temperos
Rasgando todas a tuas receitas
Tornar-me adstringente no amargo, no azedo
Jejuando-me de todas as tuas guloseimas

Inexistir o perto, o longe e o ausente
Segurando no dique todas as correntezas
Paralisar as órbitas dos planetas
Iluminando todos os meus subterrâneos

Conviver com todas as secas
Aterrando os olhos d'água
Salgar permanente todas as represas
Estimulando a sede na insalubridade

Exaurir o sentimento de poder
Enaltecendo o feio e o horroroso
No fracassado duelo com a "soedade"
Declinando o teu sopro de vida

Abnegar-me de toda coragem
Sendo refém nessa batalha infinda
Num sentimento de diferentes vestes
Ora tecido de "soidade", ora de "suidade"

Tropeçar na solitude cega no terreno
Abandonando a mais difícil tradução
Denunciando na incontrolável poética
O incontestável desejo de "matar a saudade"
               ~.~.~.~.~.~.~

Almeida Júnior - Saudade - Google Art Projet                                                

[NA.: latim "solitas, solitatis" (solidão)
a mistura dos sentimentos de perda, falta, distância e amor. Forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar", o termo saudade advém de solitude e saudar, onde quem sofre é o que fica à esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia. Etimológica das formas atuais "solidão", mais corrente e "solitude", forma poética, é o latim "solitudine" declinação de "solitudo, solitudinis", qualidade de "solus". Uma pesquisa entre tradutores britânicos apontou a palavra "saudade" como a sétima palavra de mais difícil tradução.  http://pt.wikipedia.org/wiki/Saudade]


domingo, 11 de agosto de 2013

Um sopro de outros ventos


Caetano Veloso - Meditacion [T.Jobim & N.Mendonça]

Se deitas a simples lembrança
Numa noite vivida de chuva
Restaria o perfume nas pétalas
Das recordações que te amam

No vento que leva as horas 
No caminho do tempo 
Sopram em pensamentos
Os dias de se mudar o rumo

Restou-me o silêncio da morte
No asilo da tua ausência
Descolorida memória de sombras
Num destempero nas folhas

As fatalidades te guardam 
Em teu solitário engano
Dos segredos de uma vida eterna
Sem os pulsares dos corações

Deixo esse amor fora do corpo
Nos rios que rolam as pedras feridas 
No tempo arredio da minha erosão
No pendular sonoro de tua razão

Na noite do teu consumo
Baila a insônia da eternidade
Com a lucidez dos mortos
Uma véspera que não há surpresas

Sem tocar e sem ser tocado
Pelo desejo de um corpo bailado
Na dança que roda nas saias
As cores sopradas ao vento

Vivia em teus sonhos de chuva
O cheiro de terra molhada
As nuvens esverdeiam nas matas
O essencial da vida em ser feliz  

Da morte mais-que-perfeita
O Deus alimenta nas redes
Nas águas dos sobreviventes
A fé na profecia dos tesouros 

No ar que respira a areia
À tona da profundeza da alma
As marés de envelhecer o tempo
Liberto nas aves as asas de azul

Da morte que rouba o futuro 
Na boca resseco o teu amor líquido  
Do abandono de um mundo pequeno
Restou-me viver um amor inusitado 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O pecado imortal


Lenine MTV Acústico - O Silêncio das Estrelas

Da vida tão de repente
Do vivo e do morro 
Da noite e do dia
Às margens do mundo
Cego de um rio além da curva

Furto-me da surpresa da morte
No canto que embeleza os pássaros
Quiçá numa noturna cova rasa
Semeio o corpo em cansaço
No repouso do filho ausente

Na chuva que lava o passado
De passageiro do mundo
Em cada grão faço-me terra
No seio seguro o amparo
Desperto num corpo de areia
     
Na transição dos universos
Decomponho  à luz da dúvida
A desgraça das guerras
A miséria da paz
O chorar magoado das eras

No vento que te abraço
No teu doce degustar das uvas
Meu constante sussurro nos rios
No calor em que te aqueço
Surpreenda-me com a tua luz

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Quisera ser e escolher pudera


Todo o Sentimento por Maria Bethânia - [Chico Buarque]

Quisera ser o vento constante
Suave que afaga os cabelos
Acaricia as curvas do corpo
Sorrateiro furtando o teu cheiro

Pudera fechar os olhos na noite
Numa desmedida ventura nos sonhos
Todo sentimento no vinho guardado
Derramá-lo em meu brando veneno

Quisera flutuar sobre a pele
Como uma folha sem rumo
Em cada suspirar do desejo
No teu corpo um desfolhar contente

Pudera ser o pensamento
Nos segundos mais íntimos
Ser no olhar de silêncio
O recolher das tuas lágrimas

Quisera ser a terra
Num abraçar das águas
Semeando os pingos de chuva
Num resto de céu lavar as almas

Pudera ter no rosto
O motivo de um riso
De uma boca sem beijo
Na saliva o sabor venenoso

Quisera espreitar na janela
A paisagem do infinito desejo
Sem adicionar as quatro estações
A longa e solitária estação da espera

Pudera consumar no tempo
A contradição dos corpos
Molhados num leito sem chuva
Onde o pecado insista sem culpa

Quisera descortinar o céu
Como a porta que sempre espera
A vida se abrir ao desconhecido
Sobre teu corpo deitar meu último suspiro