sexta-feira, 12 de abril de 2013

Enquanto ainda fores



Procol Harum - A Whiter Shade of Pale, live in Denmark 2006

Enquanto ainda fores
Voes...
Para que as folhas
Sejam as tuas asas

Se das dúvidas nasce a descoberta
Faço contigo a tua ausência duvidosa
No cochilo do tempo da vida,
E, por vezes,
O tempo da vida cochila em mim

Não ser a inconsequência
Do ano em que morri
Subtraidamente
Do ano em que nasci

No ápice do contratempo
Se das palavras soltas no espaço
Nascem as interrogações das estrelas
Se te descubro no nascer das dúvidas
O que farei de mim?

Serei o continuo gene
Que traça a obra inacabada
Modestamente continuada
Numa escrita quase perfeita

Se no corpo o colher as palavras que escorrem
No deslizar da pele nos teus suores
As frases afoitas desvendam os sabores
A cada descoberta a nova palavra

Não me perderei nas ruelas
Da praça do poema perfeito
Nas amarras dos verbetes
No cachorro invisível

Um novo segredo dos teus amores
No acender das chamas nas entrelinhas
Fez-te a mulher amada à penumbra da noite
Sob o teu repouso a libido se cala

Serás o clima que me escolhe
O tamanho do meu cobertor
Daquela palavra exata
Que o nó da garganta desata

Mesmo que o sim
Seja talvez insistência
Faço-te meu novo fim
Na palavra que recomeço

Diante da tua beleza deitada
Sobre enluarada pele fraseada
O verso que te desnudo
Respira-me profundo a palavra

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Se todas fossem Cecília



Wurttembergisches Kammerorchester Heilbronn - A Piazzolla - Las estaciones -Otono porteno -Violín Arabella Steinbacher


Teu pensamento ficou no tempo
Renovado a cada sensação descrita
Como se fora hoje em todas as cores

Tua inspiração renasce como as flores
Aquelas que do jardim não foram colhidas
E em seus versos exalam o teu perfume

Trazes em tuas mãos a transparente alma
Aos muitos olhos que não vistes
Almas que não acreditaram que tu existes

"Teu bom pensamento longínquo me emociona"
Torna-me menos ignorante de tudo que és
Mas resigno-me do todo que te eterniza

Teu ensinamento continua pelo tempo
Entre as palavras escolhidas com maestria
A cada descrição perfeita humildemente diria

"O vento do teu espírito soprou sobre a vida
E tudo que me era efêmero se desfez
E ficaste só tu, que és eterna..."

Teu canto existe a cada instante
E a tua poesia está completa
"Não sou alegre, nem sou triste",
Tu és eternamente poeta.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A dança das sombras


The Dance of Shadows (Hanami - Butoh dance) Este vídeo mostra cenas do filme alemão "Cherry Blossoms - Hanami", um poema bonito e delicado sobre o luto.
"Todo mundo tem sombras dentro.  Apenas mantenha-os...  mantê-los..."

No chão que me petrifico
Do ar que me faço nuvens
Na montanha que me rarefaz
Da árvore que me transplanto

No voo em que nasço pássaros
Dos muros inertes, o olhar das ruas
Das vidas que giram o mundo
Gira mundo das muitas sombras

Faz-se a luz nessa perfeita geometria
Teimo em refletir meus sentimentos
Acima e abaixo do solo em que germino
No nascer das sombras em própria vida

Num gesto suavemente sublime
No compasso dos contratempos
Dançam as sombras vivas
Renascidas de uma minguante lua

O que me torno em todos os entes
Velhas sombras dantes que os homens
Atentas aos movimentos de todos os sóis
Que fazem vivas as sombras dos mortos

Nos gestos ecoa a voz da música
No bailado de todas as sombras
Rompem no tempo a dor ausente
No diálogo da dança das sombras

Na música que nos eleva ao tempo
Nos passos que nos faz dança
Renascemos acima da vida
Nas almas que unem às sombras

Do passado que um dia existimos
No meu presente que inexistes
Do meu futuro anonimato
No tempo das sombras existiremos

Sombras de todo futuro e passado
Desde a criação de todo universo
Dos corpos que retornaram ao chão
Dancemos as sombras nas luzes eternas

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Onde desenho a lembrança



Jimmy DluDlu - Walk Of Life - Zavala - Moçambique
Nasceu em, Moçambique, entrou na música nos anos 70, nos princípios dos anos 80, imitando as músicas do Wazimbo, o seu ídolo com sonho de ser músico profissional, deixou o país nos princípios da década para Swazilândia, Botswana e depois para África do Sul, onde fez a licenciatura em música , ganhou a fama com seus álbuns "echoes from the past" editado em 1997 e "essence of rhythm" editado em Junho de 1999 .


Os passos de um dia qualquer
Perderam-se de noite na lua
A súbita flor que tomba
Na alma entristecida de céu

O amor noturno caminha no ontem
Nas ruas do teu silêncio
Onde desenho a tua lembrança
No caminho se fez eterno

O sonho que me devora
Num canto escuro da alma
O pensamento que cai da pétala
Do vestido florido de memórias

Inquietas razões da insônia
Ecoam os ruídos no sótão
São lembranças no bater das asas
No voo solitário do não sofrer

Impuro tempo bebido de outono
A emoção que a vidraça abafa
As tuas canções enlaçam a carícia
Ao gozo incerto no contratempo

Este amor dentro do drama
Recria o que ainda existe
De real amor imaginário
No céu entristecido da alma

Só quando o teu macio da pele
Deslizar no leito que desperto
Dormes o amor em meu sono
O sonho de um rio que dorme o mar

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ensina-me a voar



Hable Con Ella  [Pedro Almodóvar] of "Raquel" By Rufino Almeida & Africa Nostra, from the album "Tôp d'Coroa" by Bau.

Elevas na ave ferida
No teu voo incompreendido
Na pura liberdade de ser

Tecendo no céu as palavras
Em rede de linhas frágeis
O medo que desampara o mergulho

Não voes para os lados
Não voes para a frente
Voes para dentro de si

No afã amoroso da vida
O vento adverso nas asas
Faz do equilíbrio o mais belo voo
Em ti a criação mais valiosa

A lua no céu da boca



Hable con ella [Pedro Almodovar]soundtrack [Soy Marco]

Na florada que sobrevoas
O mistério das tuas matas
Busco nas sombras do vale
A semente em que germino

És o voo que se anuncia a esmo
No caminho do vento que se abre
Entre o espaço do céu e das aves
O vazio que cresce dentro de mim

No abismo que me entrego às cegas
Na tua lembrança amorosa
Desperta o meu universo suicida
O tremor despido das tuas vestes

Das tuas águas nasce-me a sede
No palpitar contido nas corredeiras
Deitas o poente do teu corpo
As linhas curvas do horizonte

No céu da tua boca ecoa
O desejo que toca o beijo
Na tua respiração emudecida
O infinito gozo do teu corpo


Ainda que a minha voz
Caída nas folhas molhadas
A espera pelo teu gosto
Renasço no teu sussurro da noite

No caminho que te percorro
Minha espera se perde no abraço
Sobre a tua pele arrepiada
No tato da minha mão que não sacia

No êxtase da tua vida embebida
Deito o meu sonho submerso
N'outro lado da tua tempestade
Dormirei o teu sono das divindades

Derramei o chão que fluem teus desejos
Na imensidão do sono dos afogados
Das pétalas a ânsia do teu aroma  
Durmo o eterno na saudade do teu sonho

Quando tu fores de mim
No meu voo de sobrevida
Levas a saudade nas asas do vento
Deixas na morte o ser que desconheço


quarta-feira, 27 de março de 2013

As cartas de amor ao eterno



Paco de Lucía Concierto Aranjuez - Adagio

 I
Não posso libertar o delírio
No templo de todas as sombras
O amor que em mim criastes
Na clausura do que sonhei ter

II
Alço o voo de todas as promessas
Nas lágrimas que me sangram
No tormentoso labirinto do tempo
Nas emoções que brotam a pouca luz

III
No obscuro da paixão indecifrável
Sofro a dor nos outros olhos
O triste canto que hás de ouvir
No pássaro que em mim gorjeia

IV
No engano chegaram as mágoas
Nas lágrimas da insensatez
No desespero mortal de uma paixão
A cruel ausência que hoje causas

V
No tempo de agora o sofrimento
De uma serenidade apaixonada
Se encante na luz dos teus olhos
Uma nova afeição tão desejada

VI
Nesta clausura de insuportável dor
Sem poder debruçar nos teus olhos
Atravessastes os mares para perder-me
No desencanto de uma afeição eterna

VII
Na mais vislumbrante canção
Nos lábios os beijos perdidos
Despertos na bonita manhã
Perdidamente deslumbrada

VIII
Nos pulsos em que me corto
A esperança escorre em meu peito
O venenoso amor que agoniza
Da espera que nunca voltas

IX
Quando pousas no meu olhar
A boca dos meus desejos
O cheiro da pele que tu proteges
No vento que em se acaricias

X
Despertas o que vive em meu peito
O fantasma dos mil tormentos
A certeza que me abandonas
No caminho mais longo da morte

XI
Nas pedras que rolam no tempo
Marcando a aspereza das mãos
Deito as palavras que escrevo
Adormecidas na poeira do sempre

XII
Bem sei que nada sabes
O lamentar dos impulsos do coração
Descobrir no prazer da vida
O ódio e a aversão das tormentas

XIII
Se bem sabes que nem sei quem sou
Se o amor existe nas tuas cartas frias
Nas juras secretas do teu amor
Os suspiros, as lágrimas e a minha dor

XIV
Criastes o encanto da delicadeza
Das lágrimas que minh'alma chora
O sabor nas bocas dos pescadores
A doce morte em todos os mares

XV
Na metade do papel em branco
O coração que é teu se comove
Repetindo as mesmas palavras
Loucamente morres em terminá-las

XVI
Fostes nas palavras inacabadas
A saudade dos versos que escrevo
A poesia que desnuda os corpos
O amargo adeus de sermos nós

XVII
O sentimento sincero e ardente
Na metade em branco das cartas
Agonizo o pranto para lembrar-te
Somente no amor sou por inteiro

XVIII
Em fadada sina vier a morte
Nos olhos repousando a mortalha
Furta-me daquele que se aferra
O amor que fui sobre a terra.

XIX
Nunca o saberás do amor
Como a poeira que nos ignora
O que da própria vida transcende
As cartas de amor ao eterno

http://cdn.luso-livros.net/wp-content/uploads/2013/02/Cartas-de-Amor-de-uma-Freira-Portuguesa.pdf


domingo, 24 de março de 2013

No obscuro desejo


Al Di Meola - Misterio

Não posso libertar o delírio
No templo de todas as sombras
O amor que em mim criastes
Na clausura do que sonhei ter

Alço o voo de todas as promessas
Nas lágrimas que me sangram
No tormentoso labirinto do tempo
Nas emoções que brotam a pouca luz

No obscuro da paixão indecifrável
Sofro a dor nos outros olhos
O triste canto que hás de ouvir
No pássaro que em mim gorjeia

Nos pulsos em que me corto
A esperança escorre em meu peito
O venenoso amor que agoniza
Da espera que nunca voltas

Quando pousas no meu olhar
A boca dos meus desejos
O cheiro da pele que tu proteges
No vento que se acaricia

Despertas o que vive em meu peito
O fantasma dos mil tormentos
A certeza que me abandonas
No caminho mais longo da morte

Nas pedras que rolam no tempo
Marcando a aspereza das mãos
Deito as palavras que escrevo
Adormecidas na poeira do tempo

Fostes na palavra inacabada
Na saudade dos versos que escrevo
Na poesia que desnuda no corpo
O  doce engano de sermos nós

sábado, 23 de março de 2013

Unámonos para Horadelplaneta Horadoplaneta! Earth Hour 2013 is in the Americas!


Na metade em branco da carta



Last Tango in Paris - Ikuko Kawai


No engano chegaram as mágoas
Nas lágrimas da insensatez
No desespero mortal de uma paixão
A cruel ausência que hoje causas

Nesta clausura de insuportável dor
Sem poder debruçar nos teus olhos
Atravessei os mares para te perder
No encanto de uma afeição eterna

No tempo de agora o sofrimento
Por uma serenidade apaixonada
Se encante na luz dos teus olhos
Uma nova afeição tão desejada

Na mais vislumbrante canção
Nos lábios os beijos perdidos
Despertos na bonita manhã
Perdidamente deslumbrada

Bem sei que nada sabes
Lamentar os impulsos do coração
Descobrir no prazer de viver
O ódio e a aversão das tormentas

Se bem sabes que nem sei quem sou
Se o amor existe nas frias cartas
Nas juras secretas de um amor
Os suspiros, as lágrimas e a dor

Criastes o encanto da delicadeza
Das lágrimas que a tua alma chora
O sabor nas bocas dos pescadores
A doce morte em todos os mares

Na metade do papel em branco
O coração que é teu se comove
Repetindo as mesmas palavras
Loucamente morto sem terminá-la

Do sentimento sincero e ardente
Na metade em branco da carta
Sobrevive o vazio para lembrar-me
Só se vive no amor por inteiro


quinta-feira, 21 de março de 2013

Emílio Santiago fica a sua obra!







Emílio Vitalino Santiago, nascido no RJ, em 6 dezembro de  1946,
filho adotivo, ele diz que deve tudo que conquistou à sua mãe.
Começou a trabalhar aos 13 anos.
Frequentou a Faculdade Nacional de Direito na década de 1970,
onde formou-se por insistência dos pais.
Começou a cantar em festivais universitários
nesta mesma década.
Nunca mais parou de cantar e encantar com sua voz.
Foi o homem, fica a sua obra!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Ela chegou inesperadamente



Bau Inspiração (Rufino Almeida) Cabo Verde-Noite de Cabo Verde no Zènith
Zènith de Paris 28 Avril 2001


Ela chegou intensa e lenta
Como quem devora todos os sentimentos
Muito além de todas as músicas
Muito além de todos os textos
Acima de todos os pretextos

Em verdade...

Para o espanto dos excêntricos
Ela chegou feito o silêncio que escuta o vento
Sobre as folhas, sobre as lajes, sobre as telhas
Ela chegou sobre mim e meu nefasto tempo
Sobre a ameaça, sobre a dor, sobre o amor

Ela chegou sobre a falsa liberdade
Sobre os pedaços do coração
que rolam nos degraus da escada

Ela chegou sobre todas as máscaras
Sobre a disfarçada delicadeza
Sobre o duelo de todas as neuroses

Ela chegou sobre o atrativo e o assustador
Sobre todas as ambiguidades das relações
Sobre o luxuoso e  sobre o paupérrimo

Ela chegou sobre todos os desertos e os oceanos
Sobre todos os medos que fazem parte da dor
Corra, proteja-se!

E quem disse que falo do príncípio e do fim
Se o inevitável é a morte?
Falo da chuva sobre a fragilidade humana

domingo, 17 de março de 2013

Se espelho, espelho teu



Astor Piazzolla, Verano Porteno - Summer Trondheim Soloists. Artistic Director: Øyvind Gimse. Soloist Soyoung Yoon, violin. Hamardomen. Samuelsen Productions.


Tuas cores pintaram o arco-íris
No corrimão de outras vidas
A tua paz, a vida, a tua alegria
No desenganado pote dourado

Quando o vazio preencher a alma
No calor das labaredas os estalos
Os olhos de todas coisas te olharem
Sejas a alma dos desejos mais íntimos

Na calmaria de todas as velas
No sol que morre o poente à distância
Renasça da profundeza do teu horizonte
Tão nua, tão perto da lua de si mesma

Dentro de ti mora a tua dona
A felicidade que corre nas veias
Sangra por ti todos os teus desejos
A liberdade de todos os teus sonhos

No reflexo cotidiano da vida
No mundo pronto de ser feliz
Gritas: Espelho. Espelho meu.
Há quem se pensa mais que eu?

Na razão de ser da própria vida
Aprender a amar-se para amar ao outro
Para ninguém que te aprisiona vale
A felicidade que tu conquistas hoje

sexta-feira, 15 de março de 2013

A oração dos tempos



Violon - Ikuko Kawai - Tasogare no Waltz


Saciei em ti o sabor doce do fruto
Na amargura do meu tempo
A melancólica palidez humana
Na indiferença cruel que silencia

Quando na oração dos tempos
No teu corpo fazia a nascente
Nos teus olhos a água cristalina
Na boca do peixe que me flutua

Repouso no sorriso dos teus lábios
A tua felicidade em que me procuro
No desejado dia amanhecido
Nas preces à compaixão dos homens

Lamento as guerras do meu medo
Fartei-me na vitória dos mortos
Da tua carência vivi o meu desejo
Dói-me a doença que não se cura

Na flor da terra de outros povos
No desprotegido semear do coito
As crianças morrem de infância
Na gravidez desumana da alma

Quando na oração dos tempos
Os templos pouparem sua herança
Nas tuas mãos abrirem os oceanos
N'outro continente repousar as preces

Se de um lado há dor e sofrimento
Do outro lado basta-me de indiferença
Jamais morrerei em mim tantas crianças
Na soberba indiferença dos povos
~.~
"A África além de serem afetados por inúmeros problemas, como a fome, conflitos, pobreza também passa por uma imensa crise de AIDS que teve inicio dos anos 80, onde que a doença atinge todas as classes sociais e já matou mais de 20 milhões de pessoas em varias regiões da África do sul."  A epidemia de AIDS condena, principalmente, as crianças que nascem contaminadas durante o parto.  Centenas de crianças morrem por falta de tratamento e as que são tratadas morrem por falta de medicamentos.
http://www.africaurgente.org/epidemia-de-aids-na-africa-video/


quinta-feira, 14 de março de 2013

O amor eternizado



Bau - Filosofia - D'abord repéré comme accompagnateur de CESARIA EVORA (à partir de 1991), puis son directeur d'orchestre (de 1995 à 1998 -- il est l'auteur des arrangements de l'album « Cabo Verde »).

Se te deixo partir para outros lábios
Para que fiques em mim no último beijo
O teu sentimento se vai para outras vidas
Para deixar-te no coração em eterna morada

Se te perco do encontro a paixão inconcebida
Faço de ti a profecia no monge silencioso 
O eterno que medita no teu olhar infindável 
No teu peito toca ao longe a minha triste sina

Se me faço chuva em queda suicida
Nada peço molhando os teus cabelos
Na pele sedento em percorrer teu corpo
Umedecendo a minha secura nos teus lábios 

Se te liberto para eternizar a última poesia
Te aporto no ancoradouro das ilhas morenas
Na tua quietude que o vento arrasta
Os pedaços da rasgada folha que escrevo

Se te faço canção para que morras em mim 
Com outra face dances até a noite enlouquecida
Girando, girando os corpos até a inveja lasciva 
Para que as causas esqueçam os seus mortos

Se te deixo ir como os veleiros silenciosos
Tua face de lua encoste n'outras faces de sol
Te possuirei nas vagas, no voo das aves
Nas lamentações da tua voz ausente

Se te faço fé na escuridão desesperada
Para que sejas a gota na manhã orvalhada
Das terras secas desabrochando em outros leitos  
Poderei partir de mim a tua liberdade eternizada

quarta-feira, 13 de março de 2013

A alma entristecida



川井郁子 Violon Ikuko Kawai - Still Love

A saudade semeia calada no peito
Na dança do fogo a canção do vento
No silêncio trancando os sonhos
Nas frias lágrimas dos mortos

Inquietas almas na ânsia entristecidas
Foge o fantasma do passado tormentoso
Transfigura a vida no futuro espanto
Dos anjos, dos santos e dos profetas

Enluarando a alma esmaecida
A noite repousa em teu corpo
Banha-se nua no corpo de chuva
Abraçando os teus sonhos alados

Nos olhos o brilho de estrelas
Os passos rápidos nas lentas paisagens
Nos caminhos que se fundem na noite
Alguém sofre e outros se divertem

Na cidade adormecida de esperança
Outra estação estaciona fatigada
No comboio enevoado de outono
Os corações guardados de inverno

Ainda que a morte da ira dos justos
Seja o pecado das celestiais promessas
Das maldições sou o rebelado anjo
Na inconsciência maléfica do mundo

quinta-feira, 7 de março de 2013

No silêncio das ruas



川井郁子 - Ikuko Kawai - Les pleurs de l'Âme!  

Morava a tua espera dentro de mim 
No casulo de seda as tuas vestes 
Da tua pele o gosto da chuva 
Dos cabelos o aroma de relva 

Se na distância que te percorro
Emudeço no tempo do primeiro beijo
Despertando a carícia adormecida
O mudo desejo de amar ao outro

Morava o sagrado dentro de nós
Na vibração das chamas um segredo
Condenados na gaiola do tempo
Nas bocas o desejo e o sabor dos corpos

O teu olhar morava dentro de mim  
Respirava no meu olhar inevitável
No tempo ansiado pelos ponteiros
Vibrando estrelas em pulsante brilho 

Inquieta-me a inconstante existência
Do encantamento das seduções
Das promessas e maldições divinas 
Nas preces o terrível milagre da solidão

Quando acontecer essa morte de mim
Essa morte que não se morre na vida do outro
E a vida seguir-te num próprio caminho
Sejas o sorriso no sabor de outros frutos

Sejas ainda o cheiro do vento
No velho silêncio noturno das ruas
Toma a lua à iluminar-te em versos
Para que descubras o sabor do sempre

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A tua e a minha solidão


Vanessa Mae-Tango de los exiliados-Tribal Gathering-composer Walter Taieb (The Alchemist's Symphony)


Nas asas do pássaro voei meus sonhos
Na imaginação das paisagens inacabadas
Fugindo todos os sepulcros da eternidade
Para que o futuro, o tempo devorasse

Um futuro para ser deslembrado
Na linha invisível do esquecimento

Com tuas cores do tempo repintaria o presente
Redesenhando os desejos no teu corpo de invento
Ao sopro anti-horário de todos os minuanos
Para no passado desesquecido continuar vivendo

Sem esquecer das tuas coisas inacabadas
Sei que tu continuarias acontecendo

Te recriaria numa canção feita de vento
Nos acordes que moram nas folhagens mais altas
Ao compasso das ondas dos teus oceanos
Aos agudos suspiros descompassados de amor

Mas sem o tilintar das taças, de um lado a do amor
E, do outro, a do esquecimento

Te moldaria em madeira nobre
Na janela que guarda todas as paisagens
E que se abre em duas longas asas
Imaginando o voo de novas solidões

Mesmo que a cor do tempo desbote o vestido
E o tempo, lentamente, devore todos os sentidos

Neste exílio no presente arcabouço
Seremos a solidão do eco de todas as coisas
Deitados no ar sobre todas as cidades
Estaremos a sós na multidão sem rosto

Guardaremos a areia da solidão de muitos
Na ampulheta do tempo que nos devora

Nesse exílio de nós seremos lembranças
No caminho de pedras o esquecimento
Com a tua solidão e a minha solidão
E todas as solidões que inventamos

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

No caminho do ontem



Ikuko Kawai [Live.Concert.Tour.2005]4.The Way We Were


No teu azul lembrei do encanto
Que não me vitimasse o descuido
Guardando-te no azul da água
Do céu guardado nos olhos

Despi-me da roupagem do tempo
Numa repentina distração modesta
Vesti-me de tuas lembranças
Nos teus olhos pintei a cor do azul

Negros eram os longos cabelos
Fios brilhosos da longa espera
Divididos entre a emoção da razão
Como as misteriosas estrelas e a noite

No espelho d'água desenhei teu rosto
Te guardando noutras auroras de vida
Nos anos tatuados na barreira das mãos
Construídos na tua saudade silenciosa

No braço pousastes a mão trêmula
Enquanto os degraus dos passos seguiam
Em teu apoio meu coração palpitava
Alado, ao lado, brilhando aos olhos

Nos lábios finos encontro teu rosto
Nunca fostes em meu esquecimento
Mas ao lembrar-te esquecia de mim
Te reconstruí entre os meus pedaços

Recordei-te no doce do fruto
Saboreado na meiguice dos gestos
No aroma que reconhecido
Na mulher que germinastes

Habitavas meus lugares secretos
Nos amanheceres das minhas auroras
Despedi-me da tua ternura
Restou-me a noite, sem tornar-me dia

Saudades! Dessa palavra amiga.



sábado, 23 de fevereiro de 2013

No silêncio da chuva



IKUKO KAWAI-GREEN NOSTALGIA(Scarborough Fair/Green sleeves)


O sol deitou sobre a pele
Sulcando os caminhos do tempo
Repousando na face a desesperança
No desejo de chuva que te criastes

Venha a mulher que te fazes chuva
Sobre o leito de areia em aguaceiro

Das pedras quentes do chão
Moldei a tua estátua de sal
O doce beijo evaporado
Esquecido na última gota

Faz-se noite de chuva intensa
No sonho da alma purificada

Teu tempo traduz o silêncio
Dos olhares da terra seca
Dos anjos inúteis que sobrevoam
Sobre o branco dos cemitérios

No azul vestido de linho
Tuas curvas provocam as nuvens

No divino chão os estalos gritam
O som da terra rachada
Em retorcidos galhos secos
Mortos no miserável sempre

Os pássaros escondidos de chuva
No nublado jardim do aguaceiro

As nuvens acomodam trovões e raios
No alado tropel de mil cavalos
A noite se fará chuva no suspiro de agonia
Recomeçará no temporal o que sobrevive

Sem nordeste que nos fazem agreste
Violentos agrestes que nos tornam caatinga

Vestidas de chuva as mulheres cantarão
A voz da vida sobre todas as coisas
Tão grande o temporal cairá em chuva
De tanta chuva irá doer a vida

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

No colher das palavras



Amor Em Paz   Quarteto Morelenbaum


De onde vens capturando a alma
Se as palavras que escorrem no corpo
Deslizando na pele dos teus suores
As frases desnudam os teus sabores?

O que te fazes cativamente amada
Se a cada descoberta o paladar do novo
No misterioso segredo dos teus amores
Somam as mil mulheres de todas as fragrâncias?

Onde moras no encontro da felicidade
Em tornar-te a mulher de única essência
Sussurradamente pela tua voz rouca
No enlouquecido entoar das tuas palavras?

Apontarias o caminho dos pássaros
Se sois chamas acendendo  nas entrelinhas
Na penumbra anoitecendo na mulher amada
Repousando extasiada no meu olhar que se cala?

Porque habitas em todos os meus sonhos
Tão nua diante da tua beleza deitada
Se respiro-te profundo com o olhar emudecido
Sendo o teu refém na vaga sensação de vida?

Como ardes como a saudade que semeias
Acendendo o fogo acordado de brilho
Te preciso para viver nas fagulhas dormentes
Para viver-te o amor que voa no vaivém do sono

No sonho da poesia



Morelenbaum, Sakamoto - As Praias Desertas


Anoitece a mulher que sonha
Nos dourados raios sobre os pelos
Repousa no arrepio da pele
O suave afago por entre os cabelos

Abandonas na rósea face
Dos dias de espera
Dos minutos de mágoa
Na solidão amanhecida

Descaminhos no teu carinho
Num encontro de águas
Sou a palavra que não sacia
Na incompletude da sua sede

Vestindo as curvas no teu corpo
Onde meus olhos se perdem
Desenho nos teus lábios úmidos
O sonho das minhas palavras

Contorce a chama pelo vento
Na lentidão do tempo
Ardente pensamento do semear
A revelação de todos os desejos

A quietude sobre a cama
Tece versos indecentes
Reconfortando as almas
No suspirar eterno  do silêncio

As lágrimas vertendo o lamento
Em teu ventre dança a chama
Amordaça meus pobres planos
Na tua alma doce que acalenta

A flauta no ar do sopro
Na música  que sacia o fogo
No escuro que te procuro
Como a fresta por uma luz

Nas flores que se alimentam
Na doçura que te faz mel
Desenho o perfume do teu jardim
Na poesia o mágico instante

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Memórias de chuva



Memoirs of a Geisha Soundtrack

Em proibida história te tornastes  
De um mundo delicado
Em ser contada não deverias
Proibida pelos teus mistérios 

Faz-se mistério para não sobreviver
Apenas em ser passante estranhamente

Torna-se água pela correnteza
Faz-se caminho por entre as pedras
Recria-se no novo caminho
Deixas o vazio evaporando-se

Resta-me mar que salga os peixes
Por entre os dedos somente me resto

Quisera não fosses da cor d'água
Faço-te olhos de um bosque
Tão enraizada feito terra
Numa árvore dos meus desejos

Resta-me floresta como seu templo
Salvo-me pedra gravando o teu poema
 
Dos teus olhos cor de chuva
Roubo o inesperado das palavras
Gravando-te na superfície da pele
As breves sentenças de inverno 

Torna-se chuva sobre as palavras que escrevo
Onde nada se lê, somente podes sentir   

O destino me trouxe o inverno
Numa visita inesperada
Feito água na tua cor de chuva
Apagando as frases com tua pressa

Teu jeito água de ser com pressa
Na beleza criada do mundo secreto

Em ti convive a agonia e a beleza
Onde meus dedos sangrarão 
Sobre os teus lábios vermelhos
Silenciosamente no coração te guarda

Lá fora escuto as janelas que escutam o segredo
O segredo que não se contém da inveja de ti

Nada permanece em esperança alguma
De morte lenta o coração morre
Olhando o futuro caindo do céu
Feito chuva sobre o poema

Recordações de felicidade feito sombras 
Esperança alguma se nada permanece 
Nas águas profundas dos teus olhos
No transparente segredo do teu rosto  

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Que seja dito, quando for escrito



Adios nonino symphonic arr: Sverre Indris Joner

Tudo passou
Daquilo que não pudemos ser
Tudo restou no adeus
Como o nada que resiste

Haja o que houver
Não houve um adeus
Não o saberemos nunca
No tudo que ainda resta

O que eu disser
No tempo da negação
Por mais que insistas
Que seja escrito

As palavras que não colhi
Deslizam sobre o teu corpo
Como as gotas de suor
Que não sabem morrer

O teu amor sobre a cama
E o que eu pensar,
Que seja dito
Num amor que no sonho refaço

Refaço o desamor mil vezes
No meu pensar que resta
Ainda é cedo no talvez do amor
Nesse frágil amor que invento

O depois do adeus no tocar de lábios
No ideal lugar de encontro a despedida
O meu inferno todo se arrepende
De não haver no céu pecado

Descoberto o véu do sonho
No teu corpo indecifrado
Pergunta-me para que eu saiba
O que não sei em ti

Se eras as minhas frases soltas
De um disperso poema de amor
Mas ainda não o escrevi,
nem sei o título…


domingo, 27 de janeiro de 2013

Conspiração dos amores



Falando De Amor - T. Jobim Quarteto Morelenbaum


Os lugares passaram ante aos olhos
Saltaram às folhas feito vistas
Nos mil tempos desfolhados ao vento
Pelo chão esparramando ondas

Os caminhos desfazendo amores
Doloridas promessas
Os momentos de intemperança
Subtraídas na retidão do espírito

Muito de compaixão se passa
Apenas nas coisas
Na vida passada em atos
Julgados fatos sem regras

Um pouco de nada resiste
Na aurora da dúvida
Se noite ou se dia
Na inspiração adormecida

O sopro da dúvida
No castelo de cartas
As lâminas dos naipes
Nos elementos do eterno

Amores em conspiração
No desequilíbrio do ponto
O destino em longas linhas
Nas mil folhas pelo vento

São tantos amores pela vida
Da vida de muitas dores          
Tantas dores tenhas visto
Em nós tão poucos amores