terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A tua e a minha solidão


Vanessa Mae-Tango de los exiliados-Tribal Gathering-composer Walter Taieb (The Alchemist's Symphony)


Nas asas do pássaro voei meus sonhos
Na imaginação das paisagens inacabadas
Fugindo todos os sepulcros da eternidade
Para que o futuro, o tempo devorasse

Um futuro para ser deslembrado
Na linha invisível do esquecimento

Com tuas cores do tempo repintaria o presente
Redesenhando os desejos no teu corpo de invento
Ao sopro anti-horário de todos os minuanos
Para no passado desesquecido continuar vivendo

Sem esquecer das tuas coisas inacabadas
Sei que tu continuarias acontecendo

Te recriaria numa canção feita de vento
Nos acordes que moram nas folhagens mais altas
Ao compasso das ondas dos teus oceanos
Aos agudos suspiros descompassados de amor

Mas sem o tilintar das taças, de um lado a do amor
E, do outro, a do esquecimento

Te moldaria em madeira nobre
Na janela que guarda todas as paisagens
E que se abre em duas longas asas
Imaginando o voo de novas solidões

Mesmo que a cor do tempo desbote o vestido
E o tempo, lentamente, devore todos os sentidos

Neste exílio no presente arcabouço
Seremos a solidão do eco de todas as coisas
Deitados no ar sobre todas as cidades
Estaremos a sós na multidão sem rosto

Guardaremos a areia da solidão de muitos
Na ampulheta do tempo que nos devora

Nesse exílio de nós seremos lembranças
No caminho de pedras o esquecimento
Com a tua solidão e a minha solidão
E todas as solidões que inventamos

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

No caminho do ontem



Ikuko Kawai [Live.Concert.Tour.2005]4.The Way We Were


No teu azul lembrei do encanto
Que não me vitimasse o descuido
Guardando-te no azul da água
Do céu guardado nos olhos

Despi-me da roupagem do tempo
Numa repentina distração modesta
Vesti-me de tuas lembranças
Nos teus olhos pintei a cor do azul

Negros eram os longos cabelos
Fios brilhosos da longa espera
Divididos entre a emoção da razão
Como as misteriosas estrelas e a noite

No espelho d'água desenhei teu rosto
Te guardando noutras auroras de vida
Nos anos tatuados na barreira das mãos
Construídos na tua saudade silenciosa

No braço pousastes a mão trêmula
Enquanto os degraus dos passos seguiam
Em teu apoio meu coração palpitava
Alado, ao lado, brilhando aos olhos

Nos lábios finos encontro teu rosto
Nunca fostes em meu esquecimento
Mas ao lembrar-te esquecia de mim
Te reconstruí entre os meus pedaços

Recordei-te no doce do fruto
Saboreado na meiguice dos gestos
No aroma que reconhecido
Na mulher que germinastes

Habitavas meus lugares secretos
Nos amanheceres das minhas auroras
Despedi-me da tua ternura
Restou-me a noite, sem tornar-me dia

Saudades! Dessa palavra amiga.



sábado, 23 de fevereiro de 2013

No silêncio da chuva



IKUKO KAWAI-GREEN NOSTALGIA(Scarborough Fair/Green sleeves)


O sol deitou sobre a pele
Sulcando os caminhos do tempo
Repousando na face a desesperança
No desejo de chuva que te criastes

Venha a mulher que te fazes chuva
Sobre o leito de areia em aguaceiro

Das pedras quentes do chão
Moldei a tua estátua de sal
O doce beijo evaporado
Esquecido na última gota

Faz-se noite de chuva intensa
No sonho da alma purificada

Teu tempo traduz o silêncio
Dos olhares da terra seca
Dos anjos inúteis que sobrevoam
Sobre o branco dos cemitérios

No azul vestido de linho
Tuas curvas provocam as nuvens

No divino chão os estalos gritam
O som da terra rachada
Em retorcidos galhos secos
Mortos no miserável sempre

Os pássaros escondidos de chuva
No nublado jardim do aguaceiro

As nuvens acomodam trovões e raios
No alado tropel de mil cavalos
A noite se fará chuva no suspiro de agonia
Recomeçará no temporal o que sobrevive

Sem nordeste que nos fazem agreste
Violentos agrestes que nos tornam caatinga

Vestidas de chuva as mulheres cantarão
A voz da vida sobre todas as coisas
Tão grande o temporal cairá em chuva
De tanta chuva irá doer a vida

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

No colher das palavras



Amor Em Paz   Quarteto Morelenbaum


De onde vens capturando a alma
Se as palavras que escorrem no corpo
Deslizando na pele dos teus suores
As frases desnudam os teus sabores?

O que te fazes cativamente amada
Se a cada descoberta o paladar do novo
No misterioso segredo dos teus amores
Somam as mil mulheres de todas as fragrâncias?

Onde moras no encontro da felicidade
Em tornar-te a mulher de única essência
Sussurradamente pela tua voz rouca
No enlouquecido entoar das tuas palavras?

Apontarias o caminho dos pássaros
Se sois chamas acendendo  nas entrelinhas
Na penumbra anoitecendo na mulher amada
Repousando extasiada no meu olhar que se cala?

Porque habitas em todos os meus sonhos
Tão nua diante da tua beleza deitada
Se respiro-te profundo com o olhar emudecido
Sendo o teu refém na vaga sensação de vida?

Como ardes como a saudade que semeias
Acendendo o fogo acordado de brilho
Te preciso para viver nas fagulhas dormentes
Para viver-te o amor que voa no vaivém do sono

No sonho da poesia



Morelenbaum, Sakamoto - As Praias Desertas


Anoitece a mulher que sonha
Nos dourados raios sobre os pelos
Repousa no arrepio da pele
O suave afago por entre os cabelos

Abandonas na rósea face
Dos dias de espera
Dos minutos de mágoa
Na solidão amanhecida

Descaminhos no teu carinho
Num encontro de águas
Sou a palavra que não sacia
Na incompletude da sua sede

Vestindo as curvas no teu corpo
Onde meus olhos se perdem
Desenho nos teus lábios úmidos
O sonho das minhas palavras

Contorce a chama pelo vento
Na lentidão do tempo
Ardente pensamento do semear
A revelação de todos os desejos

A quietude sobre a cama
Tece versos indecentes
Reconfortando as almas
No suspirar eterno  do silêncio

As lágrimas vertendo o lamento
Em teu ventre dança a chama
Amordaça meus pobres planos
Na tua alma doce que acalenta

A flauta no ar do sopro
Na música  que sacia o fogo
No escuro que te procuro
Como a fresta por uma luz

Nas flores que se alimentam
Na doçura que te faz mel
Desenho o perfume do teu jardim
Na poesia o mágico instante

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Memórias de chuva



Memoirs of a Geisha Soundtrack

Em proibida história te tornastes  
De um mundo delicado
Em ser contada não deverias
Proibida pelos teus mistérios 

Faz-se mistério para não sobreviver
Apenas em ser passante estranhamente

Torna-se água pela correnteza
Faz-se caminho por entre as pedras
Recria-se no novo caminho
Deixas o vazio evaporando-se

Resta-me mar que salga os peixes
Por entre os dedos somente me resto

Quisera não fosses da cor d'água
Faço-te olhos de um bosque
Tão enraizada feito terra
Numa árvore dos meus desejos

Resta-me floresta como seu templo
Salvo-me pedra gravando o teu poema
 
Dos teus olhos cor de chuva
Roubo o inesperado das palavras
Gravando-te na superfície da pele
As breves sentenças de inverno 

Torna-se chuva sobre as palavras que escrevo
Onde nada se lê, somente podes sentir   

O destino me trouxe o inverno
Numa visita inesperada
Feito água na tua cor de chuva
Apagando as frases com tua pressa

Teu jeito água de ser com pressa
Na beleza criada do mundo secreto

Em ti convive a agonia e a beleza
Onde meus dedos sangrarão 
Sobre os teus lábios vermelhos
Silenciosamente no coração te guarda

Lá fora escuto as janelas que escutam o segredo
O segredo que não se contém da inveja de ti

Nada permanece em esperança alguma
De morte lenta o coração morre
Olhando o futuro caindo do céu
Feito chuva sobre o poema

Recordações de felicidade feito sombras 
Esperança alguma se nada permanece 
Nas águas profundas dos teus olhos
No transparente segredo do teu rosto  

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Que seja dito, quando for escrito



Adios nonino symphonic arr: Sverre Indris Joner

Tudo passou
Daquilo que não pudemos ser
Tudo restou no adeus
Como o nada que resiste

Haja o que houver
Não houve um adeus
Não o saberemos nunca
No tudo que ainda resta

O que eu disser
No tempo da negação
Por mais que insistas
Que seja escrito

As palavras que não colhi
Deslizam sobre o teu corpo
Como as gotas de suor
Que não sabem morrer

O teu amor sobre a cama
E o que eu pensar,
Que seja dito
Num amor que no sonho refaço

Refaço o desamor mil vezes
No meu pensar que resta
Ainda é cedo no talvez do amor
Nesse frágil amor que invento

O depois do adeus no tocar de lábios
No ideal lugar de encontro a despedida
O meu inferno todo se arrepende
De não haver no céu pecado

Descoberto o véu do sonho
No teu corpo indecifrado
Pergunta-me para que eu saiba
O que não sei em ti

Se eras as minhas frases soltas
De um disperso poema de amor
Mas ainda não o escrevi,
nem sei o título…


domingo, 27 de janeiro de 2013

Conspiração dos amores



Falando De Amor - T. Jobim Quarteto Morelenbaum


Os lugares passaram ante aos olhos
Saltaram às folhas feito vistas
Nos mil tempos desfolhados ao vento
Pelo chão esparramando ondas

Os caminhos desfazendo amores
Doloridas promessas
Os momentos de intemperança
Subtraídas na retidão do espírito

Muito de compaixão se passa
Apenas nas coisas
Na vida passada em atos
Julgados fatos sem regras

Um pouco de nada resiste
Na aurora da dúvida
Se noite ou se dia
Na inspiração adormecida

O sopro da dúvida
No castelo de cartas
As lâminas dos naipes
Nos elementos do eterno

Amores em conspiração
No desequilíbrio do ponto
O destino em longas linhas
Nas mil folhas pelo vento

São tantos amores pela vida
Da vida de muitas dores          
Tantas dores tenhas visto
Em nós tão poucos amores


Domingo, 27 de janeiro de 2013


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A casa do eco



Sem você - Paula Morelenbaum [A C Jobim/V de Moraes]


Vazia de mim tu fostes
Sem talvez
Com a leveza da pluma
Pairando no ar feito esquecimento

Despiu-se do eco da casa
Vestiu-se de mala
Partiu-se em si mesma
Para amar-se de vida

Restou-nos a essência
Dos teus objetos
Nesta casa vazia de ti
De resto foi por consequência

Das poucas lembranças que olham
No chão ao avesso
Dos tempos que se tornaram coisas
No mundo da casa sem alma

As janelas buscaram a tua imagem
Acenando com as desbotadas cortinas
O adeus comum de todos os homens
De todas as cidades adormecidas

Sem primaveras cruzaste o rio
Levando contigo todas as flores
Por consequência das borboletas
Planaram sobre a ponte dos sonhos

Na sala do espanto respiro
As paredes que se calam brancas
Apontando sobre a cômoda
As cartas que escreves se voltas

Sobre o rio faço-me ponte
Ligando-nos no nada ao lugar nenhum
Dando-te asas para voar
Pousares entre os meus sonhos

Na penumbra dos quartos da lua [crescente]
Sobre o leito de lençóis desfeitos
Trazes o campo das miúdas flores
Estampadas com teu carmim

Nas delicadas vestes de amores
Das tuas suaves cores de querubim
Num talvez na solidão do mundo
Sejas tua voz o eco que escrevo


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Na casa do eco



Why Should I Care ~ Diana Krall


Vazia de mim tu fostes
Sem merecer
Com a leveza da pluma
Pairando no ar feito esquecimento

Restou-me a tua essência
Nos teus objetos
Nesta casa vazia de ti
O resto fui eu por consequência

As poucas lembranças me olham
No chão pelo avesso
Do tempo que se tornaram coisas
Da casa sem alma

As janelas buscaram a tua imagem
Acenando com as desbotadas cortinas
O adeus comum de todos os homens
De todas as cidades adormecidas

Como primavera cruzaste o rio
Levando contigo todas a flores
Por consequência as borboletas
Planaram sobre a ponte dos sonhos

Na sala do espanto respiro
As paredes brancas que se calam
Apontam sobre a cômoda
As cartas que escrevem que voltas

Sobre o rio faço-me ponte
Ligando-me no nada ao lugar nenhum
Dando-te asas para voar
Pousando entre os meus sonhos

Na penumbra dos quartos da lua
Sobre o leito de lençóis desfeitos
Trazei-me o campo das miúdas flores
Estampadas com o teu carmim                

Das delicadas vestes de amores
Nas tuas suaves cores de querubim
Posso esperar como lua nascente
Na casa do eco a voz para chamar-te


domingo, 20 de janeiro de 2013

No encantar das estrelas



Memories of Green - Vangelis


Quando a noite pousa nos pássaros
No encantar das estrelas que vestes
Repousas nas tuas asas de leito
Num confronto ao trono dos deuses

O Olímpo de purgatório dos onipresentes
Na existência crua dos semideuses

Ao peito acolhes nos braços a noite
Sois o exílio dos laços maternos
Sobre o manto da solidão de todos
A nua existência sobre o travesseiro

Cedo ou tarde a sorte ou a morte
Num sonho à deriva que lhe vem à boca

Reacendes das cinzas o minuto de fogo
Nas palavras recolhidas do jogo
Do indecifrável mistério da vida
Resta-nos nada, resta-nos tudo

Resta-nos quase o que poderíamos ser
Sem antes morrer com a perfeição dos mortos

Pensamentos que tudo arrastam
Devastando as dunas e os oásis
Na quietude calada da fronha
As lágrimas absorvendo as dores

Pedaços de sonhos dispersos no ser
O que a vida observa e não responde

Sonhos da ânsia de presentes deleites
Reféns do delírio de outras lembranças
No desejado sabor doce de outros frutos
No passado intocado das copas das árvores

Não morrem do sonhar como destino
Os sonhos que sonhara sonhar em sonho

O silêncio teima em pulsar o coração
Na respiração lenta do vento
Acalentas nas mãos o tato descrente
Na presença de outro corpo que inventas

Intocada carência na carícia da alma
No diálogo silencioso da mulher que te fazes

Agora não és a mulher que adormece
De vastos oceanos e imensas vagas
Num inventar de sonolentas carícias
Apenas dormes no despertar da criança

Sobre o mudo criado os ponteiros observam
Na janela do sonho o amanhecer do novo dia


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Cristais do tempo



Ikuko Kawai-Nostalgia in blue


Em cada instante que te invento
Fracionado no tempo
Corto-me nos segundos que sofro
O vento atravessa-me num sopro

Sangro a tua falta desenhada no ar
O tempo que sorri semeando a morte

A tua ofuscada luz no nevoeiro
Da tua imagem restou-me a sombra
No espelho d'água refletido
O brilho dos teus olhos de outrora

Minhas mãos calejadas de remo
Na correnteza dos sentimentos

Nos afluentes que não mais desaguam
Criando as barreiras nos desejos
Nas pedras que nascem do limo
As emoções remam nas corredeiras

A saudade dos corpos de ternura
Recolheu-se no esquecimento desatenta

Desmanchadas pelas águas do destino
Esculpindo as curvas do teu corpo
Nos cristais em que te lapido
Desenho o teu nome na areia

Restaram nas mãos os cristais do tempo
Formas perfeitas do coração de uma mulher

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

No tempo da espera


Insensatez -Fernanda Takai [Tom Jobim e Vinícius de Moraes]

Não se importes com o tempo
Nele é que me faço refém
Quando te prendo nos braços
Fazendo-me alimento para o teu eterno

Mesmo que o tempo me condene
Fazendo as tuas folhas cairem
Dou ao tempo a paz que necessita
Para te esconder na minha espera

Dos teus lábios retiro a água
Na sobrevida de todas as flores
Se me tornaste cativo do teu jardim
Convivo entre os teus dias de espinhos

És a saudade que em mim respira
Na aurora em que teu corpo parte
És a noite que em mim amanhece
Para que chegues antes que o tempo

Não te condenes no amor da espera
Na dor das palavras que invento
Soltas no vento as palavras do mundo
Para erguer do chão a lua que te quero

E ao sorrir estrelas no brilho dos olhos
Na rouca voz da noite ir despindo o dia
A espera envelhecida partir antes do tempo
Farei no tempo de espera o teu amor eterno

domingo, 13 de janeiro de 2013

Nas folhas do jardim


RAIN- Ryuichi Sakamoto


Da tua mão nasce o vôo
Do pássaro que criaste
Voa nos sonhos
Na intocável primavera do teu corpo

Absorvo na tua pele morna
A suave fragrância das flores
Sangra-me a dor
Na distância aguda dos teus espinhos

O silêncio que me cala
No calor do leito que levantas
No teu amanhecer
Adormeço nos sonhos que despertas

No etéreo sangue que nos une
Enrubesce o desejo dos teus lábios
Na boca do mistério
O chão de folhas no vestido sobre os pés

Afinidades do acaso das almas
No futuro das vidas passadas
Tornar-se oceano
Os dois corpos adjacentes que deságuam

Desvendando as palavras do corpo
Ser o peito que tua cabeça repousa
Os olhares espiam
As folhas da árvore que respiramos

Absorvendo na terra a água da chuva
O sabor doce e o desejo da fruta
No sublimar
Em raízes a semente do mesmo fruto

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Uma carta da ilusão



Jobim Sinfônico - Saudade do Brasil - Osesp


Fortaleça-me com teus desígnios
Não te fragilizes com meus fragmentos
Sou os versos que em ti recolho
Fazendo-me espanto no ruído das palmas

Se nos meus devaneios revejo o passado
Se me faço ponte que liga o nada à lugar nenhum

Sejas luz no meu labirinto
Mesmo nas frases soltas
Sejas como as luzes dos vagalumes
Nas minhas lembranças na penumbra da noite

Se me perco num anomimato andarilho
Se finco minhas raízes nas ventanias

Busco na terra a tua seiva elaborada
Nas folhas de alvura o revoar das aves
Tornar-me em ti a liberdade de voar
Num instante único de ser

Se me faço inexistente na distância
Se recluso no horizonte de ser culpado

Ensina-me teus versos da dor de amar
Nas canções que embalam teu coração
Ensina-me aos teus olhos refletir
Na invisível paisagem dos teus sonhos

Se me faço cair como gota da folha orvalhada
Se vaporizo e salgo do teor da lágrima

Sejas o inesquecível gesto que importa
A carícia na pele que me reveste
Nos lábios a palavra que principia
O mágico instante de unir as almas

Se me construo de ilusão em poucas linhas
Se frágil é o perdão na superfície da água

Debruças na poesia o teu jeito de ser
Nas entrelinhas os teus tesouros sagrados
Dadas mãos entrelaçadas à uma terra distante
Onde o vento presente nos tornará invisíveis

Se num facho refletido de tua intensidade
Se no amor de duas almas se tornarem luz

Numa carta em poucas linhas
Ensina-me a liberdade de ser poeta
Para ser livre em teu coração

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

No longe que existo



Al Di Meola - The Grande Passion - Live in Warsaw, 2000 [1]


O Longe existe no tempo
No tempo tão longe do inexiste

Tê-la pela sobra de dois corpos
Pelas gotas de saliva
Beijos inacabados
Sobras da distância de um tempo
Que a boca que não cala        

Saciam na distância de dois corpos
Nos inúmeros amanheceres infiéis

Nos anoiteceres esquecidos
Nas paisagens alegres
Tristes toques
Do  leve roçar dos lábios
O teu corpo solitário olhando

Mãos movidas pela distância das paisagens
Muitas e poucas nos alegres ou tristes talvez

Anoiteceres repousantes
De amanheceres de esquecimento
Teu cabelo solto          
Soltavam-se molhando a água
Que desaguava sobre a fronha

De bruços deitava o teu corpo cansado
Num exausto mudo de estrelas

Abraçaram as horas pelas estradas
Nas tuas sandálias cansadas dos pés
Traziam um corpo
Meu corpo que não era teu
No peso ausente da tua bagagem

Hoje teimo em saciar a sede
Com tua ausência de esquecimento

Na saia florida desenhava tuas pernas
Sobre os seios a blusa conspirava
Teu corpo deitada
No meu mudo gesto insistente olhava
O nascer da desesperança

Tão pouco necessitas para viver [disseste]
Num pouco entendido me fiz existir

Que me percebo no esquecimento
No aborto que entre nós nasceu
Não é saudade
É um lugar que o vazio existe
Se atravesso morro do que nos separa

Sigo cantando:
Puitii hapleide có-é-cáe
Uma mulher branca
Puitii burbulê cacuá candiêtê
Uma lua no céu de estrelas


sábado, 5 de janeiro de 2013

A manhã que encantas



Al Di Meola - Soledad - Live in Warsaw, 2000 [2]


Luzes escondendo estrelas
Na noite findando o mistério
No quase dia, na quase noite
Quase tudo no final da espera

O cansaço reside nas pálpebras
Nas sonolentas meninas das íris
Repousadamente despertas de si
Nos dois horizontes dos olhos

Vislumbra no esquerdo o amor
Se esconde o direito da dor
No vazio preenchendo o ninho
Faz-se janela abrindo em paisagem

Longas cercas margeiam a estrada
Farpeando fios estacando as horas
Centenas de passos em tique-taques
Num vulto longínquo da esperança

Crepusculando será que voltas,
Na quase noite, do quase dia?
Na espera final do quase tudo,
Se acendes as estrelas na lua?

Encantas a aurora que cantas
Os passarinhos da alvorada
Teus corpos vestidos de pena
De pena perdem-se no azul

Encantando o canto da aurora
Fazendo o sono dos passarinhos
Sonham manhãs em revoadas
No azul escuro pintando as penas

Na janela desfaz-se a paisagem
Na escura estrada sem margens
Como irmãs a aurora e a esperança
Repousam os sonhos das manhãs



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Boas Festas!


Boas Festas Solidariedade



【LIVE 2002】 川井郁子 - Last Tango In Paris


O eterno ciclo dos oprimidos e dos opressores
O engodo milagreiro da luz contra as trevas
Inexistem raças superiores ou inferiores
Nada os detém a igualar-se ao todo involuído

Batalhas contínuas de um destruindo o outro
Criando uma outra antagônica natureza
Para que uns sejam ricos cria-se a pobreza
Numa balança humanamente irreconciliável

A globalização pariu do útero rachada
Conflitante para o contínuo jogo desleal
No velho receituário dos capitalistas x comunistas
Sem medicação capaz de socializar a felicidade

Nos forjamos unidimencionais em belas ou feras
Num caminho convergente para o bem ou mal
Somos pares antitéticos que nos rotulam
Destruindo um ao outro no mundo que nos devora

Dos pseudo benevolentes a repulsiva caridade
A humilhação para os pobres e os desiguais
A humanidade não necessita de desigualdade
Há que ter acima do humano a solidariedade

domingo, 23 de dezembro de 2012

O dia em que o mundo acabou



Paco de Lucia & Al di Meola & John Maclaughlin - Manhã de Carnaval


A noite persegue suspeita intranquila
Albergues transbordando aos poucos
Alguns acabrunhados com a fila
Outros, nas calçadas, clamando roucos

O mundo de arredondadas pessoas rodava
No olhar indiferente nas mesas decoradas
O vazio inane da fome não reclamava
A outra metade lastimava o sabor da comida

A alegria ainda em trégua comemorava
Nos segundos calados das armas o alívio
No bloqueio das barreiras a dor se angustiava
As nações engolfando os reles sobreviventes

As torres religiosas acusavam aos céus  
Numa oração concêntrica e enigmática
A paz está contigo, mas não está conosco
Secando os olhos mundanos nos mausoléus

No contra-senso de corpos deitados ao chão
Das heresias, blasfêmias, disparates e abusos
No paraíso as crianças crivadas de balas brincarão
Na cruz com as mãos pregadas por estilhaços

Sob o capuz as coroas cavadas de mais poder
Não há duelos de paz entre os nobres purificados
Dogmas indecentes de chagas e carnifazer
Comovem-se na auto-sangria dos abcessos

Ostentam as jóias raras da indulgência
No eterno espelhar dos semelhantes
Perpetuando  a exiguidade sem clemência
Esquecemos na cordura de ser nós mesmos

Criação de heróis, mitos, deuses e símbolos
Inventando armas sobre os porões de pólvora
Blindamos o corpo contra o ser humano
Criamos a eterna ira insaciável dos frívolos

Inventamos heróis como criamos a fome
Recompensar com troféus e a infinita justiça
Manipulamos para a desigualdade social
Soberanos adornos de animais no cognome

Num suspiro em 3 segundos uma vida se esvai
Desdenhando o jejum involuntário da pobreza
Subornando com o indulto para os pecadores
Viver o rico que não dá esmolas à avareza

Peregrinação causal de todos os sulforetos
Na fé cega da escura cruzada contra o terror
Reflorestando o cerne do imaginário
Colorindo oceanos com plenos dejetos

As mãos guardam sementes da sobrevivência
Guerras santas insistem lutando por territórios
Armas criando as guerras silenciosas pela água
Mentes adormecidas inaptas de coexistência

Extinguiu-se a simbologia maniqueísta
Findou-se o bem, findou-se o mal
Somente o medo em recriar do antropoteísta
Aos desavisados. O mundo acabou há tempos!

sábado, 8 de dezembro de 2012

O abraço ausente


川井郁子 Ikuko Kawai ヴォカリーズ Vocalise[嵐が丘.Live.Concert.Tour.2005]


De repente distraiu-se a lucidez
Os braços envolveram as tuas costas
Na pele dos ombros os lábios roçaram
Pelo pescoço afagaram sorrateiros

Entregando-se no perfume dos cabelos
Deslizando as mãos se aleitaram
Intencionadas na maciez dos seios
Buscaram nutrir na clareza do instinto  

Tuas pálpebras rendidas à escuridão  
No profundo poço dos teus desejos
Deslocou-se o movimento do ar
Na tua respiração descompassada

O arrepio percorreu o teu corpo
No coração um incontrolável batimento
Na insaciável sede de se somar
Dois corpos para se tornarem n'um

Saciando na água cristalina e fresca
Abrandar a secura mais louca e intensa
No tempo explícito o obsceno cortejo
Transbordando-a incontida no amar afoita

Derramar-se aos braços da entrega
Render-se ao mais infinito abandono
Puramente, com a mente, inteiramente
Confiante na queda livre das sensações

De repente, no quebrantar do condão
Abandonas o feitiço cessando a luz
Fragmentas os sonhos c'o a tez abatida
Despertando-se nos braços ausentes

Sei que sabes o quanto despertas
A tua realidade reclama, te clama
Não tenhas remorso se morro
Sabes que ambos morremos no sonho

E no insistente alento de esperança
Nem tudo é como o coração deseja
Mas, indubitavelmente, o amor será
O amor será como ele quer que seja


Mãos da terra


川井郁子 Ikuko Kawai - Cobalt Moon


Moldas a terra em curvas
Semeia as minhas vontades
Alimentas as minhas raízes
Sustenta-me de seiva e fortalece

Ensina-me a dobrar nas ventanias
Se reconhece na minha natureza
Da terra sou feito a cada grão de argila
Sou a terra que se transforma e humaniza

Mãos da terra se cavam
Cavam mãos que se "argilizam"
Na terra que me molda
Na terra que me fertiliza

Nela vivo e estou habitante
Sou de cada poro o sal da terra
Terra, materna natureza de tudo
D'onde germino e tudo germina

Recebes em seu colo materno
Cobres em meu leito de morte
Sois cova da reles nobreza humana
És onde finaliza o ciclo e termina

O ciclo perfeito do fim
Do principio de todos nós
A brevidade que a vida sopra
A vida num sopro de terra

D'onde me deito em repouso
Por vastos campos floridos
Paisagens infindas de milharal
Dos imensos castelos efêmeros

Minha impermanência perfeita
O tempo passa, passa menos tu
Na argila moldo o teu corpo de mulher
Acolhe-me, cobrindo-nos de terra

A palavra é você


川井郁子 -Ikuko Kawai - Adagio-Margarita Concerto


Palavra de você
Você derivada no tempo
Perdendo as sílabas
Sem abrir mão da essência
Antônima do meu eu

Que tardo no frio como um agasalho
Indigestando-me das palavras
Que na ânsia de você suprimi
Por você redimi meus versos
Para torná-los ao teu tamanho

Palavra de você
Que não mudarias teu amor temporal
Mudando de vestes no mesmo verbete
Na minha língua que te fala

Na boca breve que te balbucia
Você que te reduzo ao termo
Teimo em não te esquecer
Por amor me reduzo como você


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Frutos da Pedra


川井郁子 Ikuko Kawai 死ぬほど爱して Sinno Me Merro[嵐が丘.Live.Concert.Tour.2005]

Pessoas de ruas vazias
Cheias de fartos silêncios
Andam nuas de sentimento
Vidas de corpos do avesso

Sangram-se em desamores
Horizontes poentes sem sol
Flores isentas de cores
Frutos de sementes estéreis

Pétalas perpétuas de adeus
Trevo de quatro expurgos
Mordes, mastigas, salivas,
Um paladar sem tentação

Paixões ausentes de sabor
Nem o doce, nem o azedo
Nem o adstringente egoísmo
Só o vermelho de carne morta

O caminho de volta sem raíz
O chão repleto de vidas caídas
Pessoas ávidas de si e de lua
Selvagens violetas desnudas

Mergulham no rio de trevas
Como borboletas sem asas
Flutuam no escuro imune
Pessoas e imagens sem reflexo

Vagalumes dependentes invisíveis
No refluxo retrocesso das luzes
Se apagam, se partem, se varem
Entorpecendo as almas

A vida tem a droga
Intoxicando suas vidas
A vida é uma droga
Envenenando seus corações