segunda-feira, 17 de março de 2014

Heitor Villa-Lobos - Gerald Garcia, 5 Preludes


Heitor Villa-Lobos, 5 Preludes, Prelude 3 - Heitor Villa-Lobos - Gerald Garcia, 5 Preludes
Brazilian Portrait: Villa-Lobos And The Guiitar Music Of Brazil - 8.550226
http://www.classicsonline.com/catalog...
http://www.naxoslicensing.com/

O Povo Brasileiro - por Darcy Ribeiro


"A coisa mais importante aos brasileiros.  Preste atenção... O mais importante é inventar o Brasil que nós queremos!" - Darcy Ribeiro
[Montes Claros, Minas Gerais, 26 de outubro de 1922 — Brasília, Distrito Federal, 17 de fevereiro de 1997] foi um antropólogo, escritor e político brasileiro conhecido por seu foco em relação aos índios e à educação no país.

Em "O Povo Brasileiro", o antropólogo Darcy Ribeiro nos conduz pelos caminhos da nossa formação como povo e nação.
Afinal, quem são os brasileiros? Que matrizes nos alimentaram? Que traços nos distinguem?
O documentário é uma recriação da narrativa de Darcy Ribeiro em linguagem televisiva;
a onde discute a formação dos brasileiros, sua origem mestiça e a singularidade do sincretismo cultural que dela resultou.
Com imagens captadas em todo o Brasil, material de arquivo raro, depoimentos de Antonio Cândido, Luis Melodia e Antonio Risério, entre outros, e a participação especial de Chico Buarque e Tom Zé, discutem nossas origens, nossos percursos históricos, nossos temas e problemas, nossas perspectivas de futuro.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O corpo é presente, a vida é passado


Paco de Lucia & Al di Meola & John Maclaughlin - Manhã de Carnaval [Luís Bonfá-Antonio Maria]

De tudo para um mundo pronto
Do nada como um ser vazio
O corpo em cada estação de vida
Numa esfera em rolamento

Da servidão escrava da mente
Na ausência de sabedoria
De um todo é parte ilusória
De um presente real aparente

No pensar o passado distante
Em velhos conceitos estacionado
Na inversão do contemporâneo
O mito das raças reinventado

Ilusória contemporaneidade
O corpo mente e se faz presente
A mente apenas vive, olha e sente
As quimeras do século XVIII

Sempre nasce um primitivo
Das cavernas de Lascaux
Há quem diga: Eu não sabia!
Num genocídio sempre vivo

Se quem escolheu foi o coração
No outro nem se sabe uma razão
Enquanto não reconhece no coração
Ainda que finda não se encontrará

Se discrimina num consentir calado
Por um querer que sejam raças
Outras querenças em desgraças
O corpo é presente, a vida é passado

~.~.~.~

"Para saber de mim, preciso passar pelo outro" - Lacan

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

The man. The master. Who is Paco de Lucia?


Paco de Lucía, nome artístico de Francisco Sánchez Gómez, foi um guitarrista espanhol de flamenco reconhecido internacionalmente.  Nasceu em Algeciras, Cádis - Espanha e faleceu em Cancún, Quintana Roo - México. Fez carreira como compositor, produtor e guitarrista.
Em 2004, foi distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias, como "um músico que transcendeu fronteiras e estilos". As suas principais influências, para além do seu pai, foram os guitarristas de flamenco Nino Ricardo, Miguel Borrull, Mario Escudero e Sabicas.
Paco de Lucía [Algeciras, 21/12/1947 — Cancún, 26/02/2014] 
The man. The master. Who is Paco de Lucia?
http://www.pacodelucia.com
~.~.~.~
Paco de Lucia - Entre dos Aguas [Paco de Lucia]
~.~.~.~
Larry Coryel , John McLaughlin , Paco De Lucia [Manhã De Carnaval - Luis Bonfá e Antonio Maria]
~.~.~.~
Paco de Lucía Concierto Aranjuez - Adagio [Joaquín Rodrigo]
Concierto de Aranjuez - Adagio. Composición para guitarra y orquesta del compositor español Joaquín Rodrigo.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Se nenhum segredo nos define


Pétala  -  Djavan

Guardas todos os teus segredos
Sob o perfume que inalas
Sacia-os com o suor da tua pele
Profana o silêncio com o teu silêncio

Num gemido prolongado aos ouvidos
Deitas no tempo lento das pedras
Murmuras por entre elas como a água
Saciando a sede da própria raiz

Teu corpo ocupa a sombra do dia
Navega no espaço do imaginário
O corpo sabe que se procura
No desejo em que se despe

Os olhos vagueiam no lume
É noite em tuas palavras nuas
Flamejante calor que escondes
Na fria sombra do seu ventre

Para que não morra o corpo
Na senectude da hora incerta
O corpo navega pelo exato
Na paixão incerta de outro corpo

Não és o segredo que reprime
A selvagem miséria e a música suave
Mas a dor entre o amor e o teu grito
Como a única nascente que sacia

Se a liberdade de ser livre te condena
No passado e futuro o medo presente
Entre a natureza de ser e não se ver
Em nós a perfeita incompletude criada

A vida pulsada não nos basta
Não basta a vida entre o amor e o ódio
Nem tu em mim tudo nos cala
[Nem tu basta, nebulosa vasta, tão vasta]
Somente aos mortos basta o segredo


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um dentro e fora todo fatal


O Meu Guri - Chico Buarque

Pulei o muro do manicômio
Quem se importa como?
Se de dentro para fora
Ou se de fora para dentro?

Só sei que o muro é branco
Um todo branco tudo igual
Um dentro e fora todo fatal
De loucos iguais aos loucos

Alguns tem sonhos brancos
De não saber escrever seus nomes
Carregam as vidas sem história
São enlouquecidos pela ignorância

Outros são os do "faz de conta"
Se nos encontram são soberbos
A vaidade lhes corrói as almas
Se revestem de um branco Lítio

De tão loucos se acham felizes
De tão roucos ninguém os escuta
Sentem uma alegria de três prótons
Orbitam a esperança de três elétrons

Se equilibram em cima do muro
Titubeiam no bolso cheio de pedras
Curvam de risos dos demais loucos
Seriam os tripolares da felicidade?

Outros são amantes de Calipso
Com a toxina botulínica de vaca
A expressão sempre igual a ontem
Nos olhos à contemplação asiática

Querem ser loucos e loucos eternos
Fazer da eternidade uma loucura
Um baile dos diabos dançando com anjos
Deus e o Capeta degustando as pururucas

Sempre misturando cerveja com Litio
Deus e o Capeta estão sempre loucos
Estão sempre apostando na dúvida
Se pulam para dentro ou para fora do muro

Qual louco pensa que é louco?
Quem muito pula, um muro pula
Fica a dúvida. De dentro para fora
Ou de fora para dentro?

Pode ser muito louca a vida
Falam sobre tudo e sobre todos
Dizem coisas até assustadoras
Que a vida é uma loucura passageira

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Por mais um minuto apenas [1]


Sobre Todas as Coisas [Chico Buarque] Maria Rita

Um coração cinza de enganos            
Se em teu leito nas calçadas              
Mesquinhei-te o olhar e o pão          
Engano teu, quem se enganava era eu   [...]

Minha dor senil se acomoda                
A dor não dói, são meus tesouros      
Vão-se meus domínios de agonia      
O lume da vanglória em desespero  
Quis mais... Muito além do proibido   [...]

Nem excesso e nem por fuga                
Se tudo pude ao gosto                              
No desejo de todos os sabores            
Saciei-me mais que a fome
Desdenhei da fome alheia    [...]

Os fantasmas fazem a dança
Labaredas de ódio e de rancor
A desonra há em muitos corpos
A escravidão em meus instintos
Alimento a face em guerra oculta     [...]

Encontres o amor e meu pecado
Sofro ainda mais se estás feliz
Não quero apenas seus tesouros
Se teu prazer me torna aflito
A sua felicidade causa-me dor      [...]

Tudo tive sempre ao gosto
Para um mundo sem vontades
Nem fiz pressa das escolhas
Admirei-te, averso ao teu esforço,
Só no ensejo em ser recompensado   [...]

Tantos prazeres que dei tato
Em quantos corpos meu deleite
Beijo alguém somente aos falsos
Fiz-me da vantagem o meu desejo
Não raro em corrupção tamanha      [...]

Ante o abismo que me espera
Perdí-me à luz do anjo caído
Nem o nirvana e nem o éden
Foram-se todos em promessas  
Restou-me o agora tão sozinho    [...]

Só neste segundo dei-me conta
Há um demônio em cada espelho
Seduziu-me, roubou-me as horas
Pudera quebrá-lo e não consigo  
Quisera voltar tantos momentos    [...]

Se a justiça sempre tarda
Nem a humana e nem a divina
Só reconhecí nos dois extremos
Pelo prazer que ora sofro
Contido e sábio é o equilíbrio    [...]

Nem a imagem ou semelhança
Foram as ilusões e as promessas
Nem o eterno ou tão perfeito
Teria a imagem do Divino
Se depois do verme fui criado   [...]

Por este lúcido momento
Valeu-me caro a vida inteira
Dos instintos o abandono
Olhai-me e minh'alma indaga
Se te reconheces no minuto findo   [60]

domingo, 26 de janeiro de 2014

Se um dia alguém aconteceu de amar


Maria Rita - TV Trama - Perfeitamente
Maria Rita ensaia ao vivo no estúdio trama em São Paulo - Perfeitamente (24/08/2010)

Se um dia alguém aconteceu de amar
E esse alguém perdestes ou se perdeu
Não importa o tamanho das razões
Se os motivos foram maiores ou menores
Se o destempero foi mais forte que o sabor 
Ninguém será ao certo o que perdestes
Mesmo se de verdadeiro não tenha sido o amor
Se a aparência tenha seduzido a ilusão de amar
E culpaste a vida pela dor dos erros do enganar
Se a infidelidade tenha sido mera oportunidade
Se o destino tenha sido a morte sorrateira
Navegas ao incerto na solidão intempestiva
Por onde raros salva-vidas ao naufrágio
Que o medo maior que as imensas vagas
São clarões de raios denunciando a escuridão
Se de compaixão seja o destino de se amar
E o amor seja uma viagem só de ida
Certamente a compaixão dirá: 
- Nem só de barco seguro se navega, 
Se de amor também naufragas

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Dentro do amar tem um frio


Pedaço de mim[Chico Buarque]por Chico Buarque e Zizi Possi
Este poema cantado faz parte da trilha sonora do drama musical "Ópera do Malandro"

Dentro do amar tem um frio
Por ele passa a erosão do forte
Arrasta os indecifráveis segredos
Do mistério em vida na morte

O revés da compaixão consome
O silêncio vago no descalabro
Faz nascer no conflito dos pobres
Os ladrões nos pomares da fome

Escuto a palavra perniciosa
Vacilações, no ar, mentirosas
A simples negação silenciosa
O desdém prolonga aos pobres

Cria num pulsar antediria
O cruel na asfixia das múmias
Desapreço escorchante sangria
Em sinfonia de um Nosferatu

Dentro de nós secou a espera
Num gesto mudo de uno verso
Somos da palavra o reverso
Da criança o pão que dividíamos

Retornamos à vértebra do tempo
O desdenho no livro da indiferença
Anafilaxia de omnipresença
No riso fácil dos ceifadores

A norma hedonista de um vazio
Um não estar num indolor não ser
A ascensão fogosa do simulacro
Dentro de nós apenas um frio

"Tempus fugit, tempus fugit"(1)
Pragas e demônios a besta mata
Bendirias, bestarias, bendizias...
"Toda badalada nos fere, a última nos mata"(2)


(1)"Tempus fugit" é uma expressão latina de: "O tempo foge".
(2) Provérbio latino-americano:"Todas 'as horas' nos fere, a última 'hora' nos mata"

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Emoldurando a noite


Saudade [Chico César e Paulinho Moska]Maria Bethânia e Lenine

O sol desenha em dourado
O meio do dia, o sol a pino
A formiga amarela na folha
A flor do mato, aquela de soprão

O sol ruborizado horizontea
Tece nas copas das árvores
Doura no viés das folhas
Os ninhos de passarinhos

As borboletas abanam nas asas
O vento quente de noite
Acende o lume dos pirilampos
Estrelas de céu dos gafanhotos

Fico grilado de encanto
Guardo a noite em deleite
Num tempo das vacas gordas
Que as horas mamam famintas

A noite se embala em cadeira
As mariposas olham de sapo
O preá escuta de coruja
A varanda balança de poesia

Amanso o teu pé de sono
A boca sussurra de ouvido
Em lua que pisca de meia
Te durmo de sonho acontecido

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Entre a cidade sim e a cidade não

Zima, Rússia [imagem internet]
Рождеством Христовым и с Новым годом

Sou um comboio rápido
que há muitos anos vai e vem
entre a cidade Sim
e a cidade Não.
Os meus nervos estão tensos
como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim.

Tudo está morto e assustado na cidade Não.
É como um embrulho feito de tristeza.
Dentro dela todas as coisas franzem a testa.
Há medo nos olhos de todos os retratos.
De manhã enceram com bílis o soalho.
Os sofás são de falsidade, as paredes de miséria.
Nunca te darão nessa cidade um bom conselho,
nem um ramo de flores, nem um simples aceno.
As máquinas de escrever batem, com cópia,
a resposta:
"Não-não-não... não-não-não... não-não-não..."
E quando enfim se apagam as luzes
os fantasmas iniciam o seu lúgubre bailado.
Nunca, ainda que rebentes, arranjarás bilhete
para fugir da negra cidade. Não.

Ah, mas a vida na cidade Sim é um canto de ave.
Não tem paredes a cidade, é como um ninho.
As estrelas dizem que as acolhas nos teus braços.
E sem vergonha seus lábios pedem teus lábios,
num brando murmúrio: "São tudo tolices..."
A flor provocante implora que a cortes,
os rebanhos oferecem o leite com seus mugidos,
ninguém tem ponta de medo.
E aonde queiras ir te levam num instante comboios,
barcos, aviões,
e com um rumor antigo vai a água murmurando:
"Sim-sim-sim... sim-sim-sim... sim-sim-sim..."
Mas às vezes é certo que aborrece
ser-me dado, afinal, tudo sem esforço
nesta cidade Sim, deslumbrante de cor.

É melhor ir e vir até ao fim da minha vida
entre a cidade Sim
e a cidade Não!
É melhor ter os nervos tensos como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim!

Ievgueni Ievtuchenko
in Ievtuchenko em lisboa (1967)

http://canaldepoesia.blogspot.com.br/2009/06/ievgueni-ievtuchenko-entre-cidade-sim-e.html

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Boas Festas!


Desenho de Giz -[João Bosco e Abel Silva] João Bosco

Se o sorriso é breve
E a vida mais breve ainda
Se a vida é leve
E o sorriso mais leve ainda

Pois, seja a vida breve e um sorriso leve
Mesmo que breve, sejas leve e sorria

Boas festas e um Feliz Natal!



Nasce um rio dentro do amar


Quando O Amor Acontece - [João Bosco e Abel Silva] João Bosco
Faixa composta para o álbum 'Ai Ai Ai de Mim' (1987)

Encontro o lado molhado de noite
Perdi na palavra o nome de amar
Morro a sua nudez de sereia
Na aurora o trevo de seu luar

Dentro de mim tem um rio
Fiz-me tarde e findo anoiteço
Nasço de encontro das águas
Emudeço a memória que teço

O amor tem aladas rimas
Conhece o sonho acordado
Quando usa as asas de noite
Cobre o sonhar das lágrimas

O dia sempre chega de noite
Quem ama um dia, n'outro chora
A noite, sussurra-se o terço e ora
Seremos todos, um dia, o embora

O carinho afaga os passarinhos
A saudade mora no olhar de cão
O silêncio brilha o desejo de sol
Adormecido na palma de sua mão

A noite se descobre de pele
A paixão agita sobre as águas
Do silêncio infinito das pedras
Acorda o amor de suas mágoas

Nasce um rio dentro do amar
O verbo delira no curso de rio
De permitir-se à vida, nasce o mar
Em auroras de possíveis sonhar

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Gosto mesmo é de virar nuvem


Mente Ao Meu Coração [F. Malfitano, Fco Malfitano e Pandia Pires] por Maria Rita

Estou sofrendo de crepúsculo de letra
Deve ser de segredo de caracol
Fico de espiral escrevendo de cetra
Sou feito de nariz de longo vento

Vivo tentando ser o gosto de saudade
Embaraço os teus cabelos de milho
As borboletas brilham de maioridade
Reclamam que os girassóis giram de chuva

Gosto mesmo é de virar nuvem
Escuto música da árvore de sanha
Deito de passarinho de adoçar frutas
Amarro o tempo de teia de aranha

Sou um prego de parede branca
O que segura a tua imagem de cera
Um rio de vidro passa cortando de bera
Atrás da tua lembrança de mil pedaços

Um colibri leva as asas de ver-te
Guarda o lume de uma esmeralda
Os gerânios transpiram de toda sede
Pela doce saliva que da sua boca verte

A morte se viu e cobriu-se de vida
Agora dorme-se no sono de garça
Seu corpo faz que brilha de meia lua
Da água o peixe olha e boia de farsa

Auroras entre as vespas não é tudo
A vida de boa ou má sorte afunda
O antes, durante e depois do ludo
Todo formigueiro lidará com a morte

Escuto música da árvore de manha
Deito de passarinho de adoçar frutas
Amarro o tempo de teia que assanha
Gosto mesmo é de virar nuvem

.


Trajetória [Serginho Meriti] por MARIA RITA

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tem gente qualquer que afrouxa


Dindi [Tom Jobim e Aloysio de Oliveira] por Jane Monheit
September 23rd, 2002... It was a particularly beautiful and sultry evening--and, high atop Manhattan, the romance of the legendary Rainbow Room was in all its glory--a truly perfect match for the magnificent voice and presence of Jane Monheit.

Torço o rio até que as gotas corram
Indiferentes, morrem de nada
Só podem estar doentes de rio seco
Como uma doença que dá de olho
Gota de lágrima seca de horizonte
Fica vermelho de tanto fogo de céu  

Viver é, antes de tudo, uma morte
Antes de ser pedra, nunca foi água
Era poeira de sola, um pé andando à toa
Perseguia a sombra de maré de peixes
A morte descobriu a água no olho de peixe
Desde então, a morte se descobriu na vida

Essa abelha dorme na flor de aurora
O orvalho está escondido de lua
O amanhecer sofre de ontem
Ninguém quer envelhecer um dia
Tem gente qualquer que afrouxa
A minha roupa de insônia que disse

Uma voz pequena virou mulher
(Tem voz pequena que vira o bicho)
Antes era um vento cheio de curvas
Gostava de ser folha solta dançando
Sofria presa de ponta de galho
Nem cantava de bico de passarinho
Depois do primeiro voo virou asa

Foi a unha encravada que disse
Que a vida dói de quem tropeça
Tem ideia que pousa em cabeça
Parece dois dedos de falatório
Desenha a letra "V" de vencido
Foi ver era caroço de encruzilhada

‎Bom mesmo é fingir de carroça
Mas só funciona na frente dos bois
Precisa chover muitos grãos de terra
A estrada revira em tapete de nuvem
Se ajeita no balançar de pensamento
Fica um gosto de nada solto de vento

A vida tem um gosto que só o doce sabe
O amargo vive perguntado de azedo
Será que o azul abriu o horizonte?
Se quem é vivo anda dormindo
O sonâmbulo acordado de sonho
O dia amanhece só de anoitecido

O fim do amor começa de eternidade
Teima de sofrer de tudo aguenta
O cupido disse: o tempo sofre de batata quente
Tem amor grande de caber o impossível
No nada cabe sempre duas pessoas
O grande encontro é do tamanho de um fim


  

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Coisificando a coisa


AMANHÃ [Composição: Guilherme Arantes]por Guilherme Arantes

De súbito, fez-se a coisa
Se soubesses as coisas que senti
Certamente, muitas coisas seriam diferentes
Algumas coisas poderiam ser evitadas

Tantas coisas que realizaríamos juntos
Fez-me pensar nas coisas que passamos
Vos digo daquela coisa que sentíamos
Sei que eram coisas do nosso tempo

Entre tantas outras coisas que fomos
Só nós sabemos das coisas que vivíamos
As outras coisas vivem outras coisas
Algumas, entre tantas, coisas boas, coisas ruins

Seu olhar sempre traduzia aquela coisa
Aquela coisa só tua de ser aquela coisa
Nós tínhamos tantas coisas em comum
Mas, sei de outras coisas nem tanto

Sei que falo da coisa passada
Coisas que nem devemos lembrar
As coisas de hoje são diferentes
Sinto que as coisas estão mais frouxas

As coisas não estão mais palpáveis
As coisas da vida se desmancharm no ar
As coisas que gostamos passam tão rápido
Hoje sou uma coisa, amanhã sou outra coisa

Alguma coisa faz-me ficar em casa
Nem consigo sair para fazer as coisas
Dá-me um pavor de todas as coisas
Um temor de todas as coisas ruins

Sei que a coisa está pegando
Se ficar a coisa pega,
Se correr a coisa coisa
Pensar na coisa dá até um frio

Daqui há pouco a coisa passa
As coisas melhores são eternas
As coisas que sinto passam
A única coisa que sei e que não sei

Tudo é coisa de deixar acontecer
Coisa de hoje, coisa de futuro
Coisa que hoje serve, amanhã é outra coisa
O que mais importa mesmo é a coisa que sou  

A coisa é mais embaixo
Coisas de rir
Coisas de chorar
Entre tantas coisas de amar

Só sei que foste a coisa mais linda
Não te trocaria por nenhuma coisa
Porque foi a coisa mais importante
A coisa que mais sinto falta entre outras coisas  

Algumas coisas dão prazer
Outras coisas nos machucam
Mas no fim... sabes de uma coisa?
Na coisa cada coisa tem o seu lugar

Amanhã a coisa vai ser diferente

domingo, 8 de dezembro de 2013

Na superfície lisa da indiferença


A moça do Sonho [Chico Buarque e Edú Lobo] por Maria Bethânia

Num sentimento de eco profundo
Percorro sem norte em superfície gélida
Meu tempo é do contratempo
Nele habita o desamor do mundo

Mora em mim o homem vazio
Se paro e reflito, afundo e congelo
Meu tempo tem o tempo do vão
Percorre na lâmina o corte frio

Não há tempo de sentir a falta de mim
Meu pobre tempo nem tempo tem
De mais tempo para a ignorância fértil
Sobrevive na escassez do próprio fim

Recrio a tristeza nas próprias dores
Descrentes, somos o medo de ser feliz
Meu tempo é de um sobretempo
Não consegue amanhecer os amores

A viva inércia do conhecimento redutor
Ressoa na solidão silenciosa de ser livre
Reconstrói o corpo num deus de plenitude
Incessante novo sem tempo de ser amor

A nudez num espaço sem sentido
Sobrevive da vigila dos laços frouxos
Meu tempo é de rasos desejos
É a palavra no consumo emudecido

Obscureço o real em outros gostos
A insaciável mudança da existência
Meu tempo desconstrói o sagrado
Clarifica-se em profanos rostos

Guardo-me no espelho de narciso
Sou o apocalipse e a temida medusa
Não me faço dos olhos dos outros
No tempo vivo sou o impreciso

No encontro de outra sobrevivência
Meu tempo será a condição do outro
Será a identidade aberta e solidária
Na pulsação replicante da convivência

No recomeço que uma vida revela
Num deus real de um novo paradigma
Na face aberta pela condição do outro
O tempo será daquele que o sujeito zela

Se o meu tempo criou o tormento
Se tudo confinas à indiferença
Se só reconheces na condição humana
Os horizontes breves de cada momento

Na flor de plástico um eternizar
Sou todo o sólido que se desfaz
No abandono dos próprios sentidos
Sou o medo coletivo de amar

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O escritor que "iluminou a poesia portuguesa"


O que tinha de ser  [Vinicius de Moraes e Tom Jobim] por Caetano Veloso

[Não posso adiar o amor para outro século]

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

O Grito Claro, 1958
António Ramos Rosa
http://antonioramosrosa.blogspot.pt
O escritor que "iluminou a poesia portuguesa"
Poesia Biografia Desenhos Artigos Bibliografia
80 anos de poesia
António Ramos Rosa - fotografia de joão silva Blogspot

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O beijo da fruta vermelha



Bau Raquel Cape Verdean Melancholy  - Born on the Cape Verdean island of Sao Vicente, Rufino Almeida (aka Bau, which is the Portuguese word for box) was raised by a professional luthier who taught him both to build and to play the guitar, the violin, and an indigenous four-stringed instrument called the cavaquinho, all of which he mastered at a young age. During his tenure as musical director for singer Cesaria Evora in the 1990s, Almeida found time to record several albums of his own, highlights of which are compiled on Cape Verdean Melancholy for the U.S. market to coincide with the release of the Pedro Almodovar film Talk to Her (which features the album's lead track, "Raquel," in its soundtrack).


Quando abres a manhã
Na janela do teu quarto
O dia nasce na tua luz tão mansa
As flores te olham do jardim
Até que as tuas vestes caiam

Na pele da tua nudez aflorada
Ao reconhecê-la do mesmo caule
Se do mesmo pólen te principias
As águas deságuam dos peixes
E criam as correntezas dos rios

As folhas agitam o tempo do medo
Das mãos da criança esquecida
O dia envelhecido feito brinquedo
No vestido da boneca descolorido
Na prateleira emudecida de lembranças

Do alto das copas das árvores
D'outros sonhos a mulher desperta
Flui secreta a tua intimidade
Na beleza misteriosa do teu mundo
Para o segredo dos oceanos

Na polpa macia dos lábios
No beijo da fruta vermelha
Semeia a natureza do mesmo encanto
Degusta na saliva o único desejo
No sabor doce de um beijo

Ao longe os suspiros desmaiam
Nos olhares passantes dos distraídos
Nos ventos que cultivam no jardineiro
O espanto que sopra dos passarinhos
Pousando no corpo o desejo de ser mulher

[Sssssss... Morde Evinha! A maçã emagrece.]


sábado, 16 de novembro de 2013

Na dança das sombras [Butoh dance]


The Dance of Shadows (Hanami - Butoh dance)  
Este video mostra cenas do filme alemão "Cherry Blossoms - Hanami", um poema bonito e delicado sobre o luto.

No chão que me petrifico
No ar que me faço nuvens
Na montanha que me rarefaz
Na árvore em que me transplanto

Nos pássaros em que nasço o voo
Dos muros inertes, no olhar das ruas
Nas vidas que o mundo gira
Gira o mundo de todas as sombras  

Luz e sombra em perfeita geometria
Refletem o meu sentimento
No mesmo chão que germino
Transcendo em sombras de própria vida

Sombras sem gestos do tempo
Num compasso do sentimento
Na viva dança das sombras
Nasço de um amar crescente

Sombras de um infinito celeste
No movimento de todos os sóis
Transcendo do todo perene
Na sombra de todas as sombras

Mudos gestos de única voz
Bailado de sombras sem corpo
Rompe o limite da ausência
Na dança em único verso  
 
Nos passos que nos faz dança
Acima da vida e da morte
No lume se une as sombras
No enlevo espaço da alma

No silêncio do tempo
O efêmero anonimato
Nem sagrado, nem o profano  
Sou a alegria e sou o trágico

Abandono as minhas próprias guerras
Meus fantasmas de ódio e de dor
Desfaço-me da injustiça e das paixões
Sou apenas a minha sombra sem corpo

Danço nas sombras celestes
De todas as luzes eternas
Na sombra que existe em ti
Em mim a tua infinita sombra

Tem uma sombra dentro
Todo mundo tem
Tem em todo mundo
Uma sombra dentro de nós

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A soberba e a inveja


Meu Bem Querer(Djavan] - Saulo Fernandes, Blick Bassy e Banda Eva
BlickBassy.com  Cameroonian Afro blue soul singer-songwriter ,Human Rights Activist,militant.
https://twitter.com/blickbassy

Se ser o melhor entre os piores lhe basta
Se acalentas essa razão envaidecido 
Lembre-se que entre os humanos tudo passa 
O tempo passa e morre de inveja do eterno


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nas folhas do teu jardim


Autumn Leaves-Joseph Kosma [by Natalie Cole]

Da tua mão nasce o voo
Do pássaro que criastes
Voas nos sonhos intocável
A primavera do teu corpo

Absorvo na tua pele morna
A suave fragrância das flores
Sangra-me a dor na distância
Tempo agudo dos teus espinhos

O silêncio que me cala
No calor do leito que levantas
No teu amanhecer adormeço
Dos meus sonhos que despertas

No etéreo sangue que nos une
Enrubesce o desejo dos teus lábios
Na boca do mistério um chão de folhas
Um vestido caído sobre os pés

Afinidades do acaso das almas
No futuro das vidas passadas
Tornar-se oceano de dois corpos
Adjacentes amores que deságuam

Desvendando as palavras do corpo
Ser o peito que tua cabeça repousa
Os olhares que espiam as folhas
Na árvore que respiramos

Absorvendo na terra a água da chuva
O sabor doce e o desejo da fruta
No sublimar em mesmas raízes
O semear de um mesmo fruto

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Paulinho Tapajós - compositor, cantor, produtor musical, escritor e arquiteto brasileiro.


http://www.paulinhotapajos.com.br/home.php
Bem vindo ao site oficial do compositor Paulinho Tapajós.

Navegue pelo site através dos links disponíveis no menu superior ou no rodapé de cada página.
Clique ou acesse o site:
Clique aqui para ouvir (flash) o CD Preparando a Canção!  
http://www.paulinhotapajos.com.br/cd_preparando_a_cancao.php
Clique aqui para ouvir (flash) o CD Viola e Violão!
http://www.paulinhotapajos.com.br/cd_viola_e_violao.php
Clique aqui para ouvir (flash) o CD Coração Poeta !
http://www.paulinhotapajos.com.br/cd_coracao_poeta.php

Paulo Tapajós Gomes Filho, mais conhecido como Paulinho Tapajós (Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1945 — Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2013)1 2 foi um compositor, cantor, produtor musical, escritor e arquiteto brasileiro.
É filho do compositor, cantor e radialista Paulo Tapajós e irmão do compositor Maurício Tapajós e da cantora Dorinha Tapajós. [RJ 17/08/1945 - 25/10/2013]


Andança -  Paulinho Tapajós ( por Beth Carvalho & Golden Boys]

sábado, 19 de outubro de 2013

Centenário de Marcus Vinicius Cruz de Mello Moraes

Brasil, 19 de outubro de 2013
Porque hoje é sábado.

Porque hoje é o Centenário de Marcus Vinicius Cruz de Mello Moraes


Vinicius de Moraes Ao Vivo no Canecão, de 1977, em que o Poeta recita o poema Dia da Criação, com acompanhamento musical em jazz.
Dia Da Criação

  I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

 II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

                                                                      ~*~^~*~^~*~

Se todos fossem iguais a você - Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Vai tua vida
Teu caminho é de paz e amor
A tua vida
É uma linda canção de amor
Abre os teus braços e canta
A última esperança
A esperança divina
De amar em paz

Se todos fossem
Iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol, como a flor, como a luz
Amar sem mentir, nem sofrer

Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você

                                                                   ~*~^~*~^~*~

Para Viver Um Grande Amor - Vinicius De Moraes e Toquinho

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor, preciso
É muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
É ser um homem de uma só mulher
Pois ser de muitas - poxa! - é pra quem quer
Nem tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há de fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor direito
Não basta apenas ser um bom sujeito
É preciso também ter muito peito
Peito de remador
É sempre necessário ter em vista
Um crédito de rosas no florista
Muito mais, muito mais que na modista
Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor, é muito
Muito importante viver sempre junto
E até ser, se possível, um só defunto
Pra não morrer de dor
É preciso um cuidado permanente
Não só com o corpo, mas também com a mente
Pois qualquer "baixo" seu a amada sente
E esfria um pouco o amor
Há de ser bem cortês sem cortesia
Doce e conciliador sem covardia
Saber ganhar dinheiro com poesia
Não ser um ganhador
Mas tudo isso não adianta nada
Se nesta selva escura e desvairada
Não se souber achar a grande amada
Para viver um grande amor!

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia 

                                                                   ~*~^~*~^~*~

Soneto do amor total - Vinicius de Moraes

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

                                                                   ~*~^~*~^~*~  

Soneto da Fidelidade -  Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

                                                                   ~*~^~*~^~*~  
                                                                       
1913
Nasce, em meio a forte temporal, na madrugada de 19 de outubro , no antigo nº 114 (casa já demolida) da rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, ao lado da chácara de seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz. São seus pais d. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, este, sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes.

Graduado em Direito, em Letras no Santo Inácio, agraciado pelo Conselho Britânico com um curso de Língua e Literatura Inglesas na Universidade de Oxford - Magdalen  College.
Entre tantas qualidades:  Diplomata, Poeta, Romancista, Cronista, Crítico cinematográfico, Compositor. Vindo de Paris em 1956, onde trabalhava no roteiro do filme Orfeu Negro,  convida Antônio Carlos Jobim para fazer a música do espetáculo Orfeu da Conceição, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, iniciando com ele a parceria que, logo depois, com a inclusão do cantor e violonista João Gilberto, daria início ao movimento de renovação da música popular brasileira que se convencionou chamar de bossa nova.
Centenário de  Marcus Vinicius Cruz de Mello Moraes
Canto de Ossanha ["eu sei, Vininha. o ‘amor’ só é bom se doer."]
Saravá!  Vida eterna ao Poeta!
                                                                    ~*~^~*~^~*~  

Berimbau /Canto de Ossanha-Vinícius de Moraes e Baden Powell [Vínícius, Toquinho, Miúcha, T Jobim]

Berimbau 
Baden Powell e Vinicius De Moraes

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará

Se não tivesse o amor(2x)
Se não tivesse essa dor(2x)
E se não tivesse o sofrer(2x)
E se não tivesse o chorar(2x)
Melhor era tudo se acabar(2x)

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais do que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará
                                                                     ~*~^~*~^~*~
Canto de Ossanha
Baden Powell e Vinicius de Moraes

-"O canto da 
E mais misteriosa das deusas
Do candomblé baiano
Aquela que sabe tudo
Sobre as ervas
Sobre a alquimia do amor"

Deaaá! Deeerê! Deaaá!

O homem que diz "dou"
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz "vou"
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz "sou"
Não é!
Porque quem é mesmo "é"
Não sou!
O homem que diz "tou"
Não tá
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!...

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de ...

Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...(2x)

                                                                     ~*~^~*~^~*~
VINICIUS
DE MORAES
http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br
"Meu tempo é quando"
Poética - Nova Iorque - 1966
Vida e Obra
 

A que há de vir
[Rio de Janeiro]

Aquela que dormirá comigo todas as luas 
É a desejada de minha alma. 
Ela me dará o amor do seu coração 
E me dará o amor da sua carne. 

Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo 
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios 
Ela é a querida da minha alma 
Que me fará longos carinhos nos olhos 
Que me beijará longos beijos nos ouvidos 
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso. 
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas 
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego 
Ela abandonará filho e esposo 
Abandonará o mundo e o prazer do mundo 
Abandonará Deus e a Igreja de Deus 
E virá a mim me olhando de olhos claros 
Se oferecendo à minha posse 
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor 
Cheia de uma pureza luminosa. 
Ela é a amada sempre nova do meu coração 
Ela ficará me olhando calada 
Que ela só crerá em mim 
Far-me-á a razão suprema das coisas. 
Ela é a amada da minha alma triste 
É a que dará o peito casto 
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração 
Ela é a minha poesia e a minha mocidade 
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma 
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele. 

Ela é o amor vivendo de si mesmo. 
É a que dormirá comigo todas as luas 
E a quem eu protegerei contra os males do mundo. 

Ela é a anunciada da minha poesia 
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos 
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.

http://www.viniciusdemoraes.com.br/site/rubrique.php3?id_rubrique=2
                                                                 ~*~^~*~^~*~  

"Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes", programa produzido pela TV Cultura em 2009, traz participações de Carlos Lyra, Toquinho, Fernando Faro, Anna Luisa, Margareth Menezes, Paula Mirhan, Chico Buarque, Tom Jobim, Poeta Ferreira Gular, Antonio Cândido de Mello e Souza entre amigos.


Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 1/5
                                                                      ~^~^.^~^~

Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 2/5
                                                                       ~^~^.^~^~

Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 3/5
                                                                       ~^~^.^~^~

Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 4/5
                                                                        ~^~^.^~^~

Mosaicos - A Arte de Vinicius de Moraes - Parte 5/5 (Final)
                                                                        ~^~^.^~^~

Soneto de Separação - Vinícius de Moraes

Soneto De Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

                                                                           ~^~^.^~^~

Tomara (Buenos Aires 1970) - Vinícius de Moraes

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara 
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

                                                                        ~^~^.^~^~

A Felicidade - Vinícius De Moraes e Tom Jobim

Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou da jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.

A felicidade é um coisa louca
Mais tão delicada, também
Tem flores e amores de todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo isso ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato sempre dela muito bem.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

                                                                        ~^~^.^~^~

Mais um Adeus - Vinicius de Moraes por Toquinho e Maria Medalha

Mais um adeus
Uma separação
Outra vez, solidão
Outra vez, sofrimento
Mais um adeus
Que não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar

[Contraponto]

Olha, benzinho, cuidado
Com o seu resfriado
Não pegue sereno
Não tome gelado
O gim é um veneno
Cuidado, benzinho
Não beba demais
Se guarde para mim
A ausência é um sofrimento
E se tiver um momento
Me escreva um carinho
E mande o dinheiro
Pro apartamento
Porque o vencimento
Não é como eu:
Não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar

                                                                         ~^~^.^~^~

Eu Sei Que Vou Te Amar-Vinícius de Moraes e Tom Jobim-[Maria Creuza, Vinícius de Moraes e Toquinho]

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Obrigado Eterno! - Parabéns ao Poeta - Vinícius de Moraes [19/10/1913-19/10/2013]