domingo, 2 de junho de 2013

Efemeridades


Maria Rita - Me Deixas Louca [Armando Manzanero]

Se a indiferença caminha no teu olhar
Na dança do vento que abre a cortina de chuva
Das copas das árvores, o verde colorindo as folhas
Da terra molhada o perfume à tua natureza

E mesmo assim...

Se a urbanidade faz a diferença no teu andar
O cheiro molhado se perde de terra e de verdades
O silêncio da noite se falseia dos gafanhotos
No brilho dos olhos não há pirilampos

O mesmo então...

Quando a areia corria por debaixo dos pés
A mão contrariando a corrente na beira do rio
Quando a primavera corria nas flores do campo
Era o tempo do corrupio da passarinhada

O mesmo fim...

Era um caminho velho que não sabe voltar
Perdeu-se nos falsos caminhos do mundo
O verde, o amarelo se avermelharam nos sinaleiros
O vento e a chuva, o sol erguem-se no vidro das janelas

O mesmo amor...

As árvores farfalham nas tintas da tela
Os verdes campos ventam nas aquarelas
O amor já não voa dourado na gaiola
De tão perfeito morre dos teus arranha-céus

domingo, 12 de maio de 2013

O corpo que me confesso


Mônica Salmaso - Valsinha [Chico Buarque]

A lua calada te espia
Pelas frestas da janela
No vidro imóvel que resfria
A chuva respinga em aguarela

O beijo que se fingiu presente
Na boca sem resistir a espera
Olhando o teu corpo ausente
O suspirar ansioso se desespera

Na solidão do teu olhar semeio
O beijo da sua boca ausente
Nas curvas da pele que anseio
Espantar a saudade onipotente

Afugentas de mim os demônios
Que atormentam o meu sonho
Comemoram os pandemônios
No adiado desejo que oponho

Deixas beber em teu olhar
A espera de um só lampejo
O suspirar lascivo de amar
No tremulo sabor que almejo

Nos teus olhos o escurecer
Dos lábios o percorrer na pele
Na flor que afago ruborecer
Tuas mãos o agarrar compele

Abrasa o contorno do teu rosto
Na minha pele teu nome tatuas
Dos entreabertos lábios o gosto
No infinito gozo de todas as luas

Acalenta o meu desejo de amar
Na transparência do teu peito
Mergulhas e se faz desaguar
A tua ternura em nosso leito

És a palavra que me condiz
O amor que me regresso
A água que me bendiz
O corpo que me confesso

sábado, 11 de maio de 2013

Ficou no tempo


Chico Buarque - Porque Era Ela, Porque Era Eu (Carioca Ao Vivo) [CC]


Da areia aos analógicos
O tempo passou
Nos relógios ilógicos

O vento passou
Passei no eu
O nós passou

Queria ter mais razão
Talvez...
Tapar a luz do clarão

O amor das muitas luas
Sem que voce me note
Se perdeu pelas ruas

Despiu-se do vento
Ficou comigo nua
E se foi com o tempo

Foi-se feito verão
Jogo no ato fatal
Meu coração no chão

O tempo parou
A areia findou
O amor se foi

Nas palavras poucas
No acalentar das almas
Das nossas vozes roucas

Era tão pouco o ensejo
Restou só na boca
A pretensão do beijo

domingo, 5 de maio de 2013

Um amor nasce do caos



João Bosco - Desenho de Giz


O tempo...
Avança sobre os ponteiros
Na eterna lua de alabastro
Que atravessa a noite
Como um grito de sol

As palavras suspensas no vento
Caem da torre feito folhas
Num sombrear meticuloso
No escolher as cabeças

Revelam a palidez do mar
Flutuam nos fragmentos das almas
Nas memórias perdidas
Nas palavras ocas
No ecoar do delírio sonhado
No mistério

O amor voa num meteoro
Num raio de luz
Nas almas em cruz
Nascidas na ira de Deus

Numa nebulosa metamorfose
Homens tornando felinos
Mulheres virando peçonhas
Uma sucessão de semideuses
Na inconstante palavra metamórfica
As mãos do ódio esgana o amor
No transformar de pessoa em pessoa

Entrelaça o pescoço do ódio
A híbrida relação rarefeita
A morte traz a franqueza do caos
No renovar dos velhos conceitos

O escuro amor contínuo
No solitário, no incompreensível
No cego, no perdido de amor
No coração o medo asfixiado
Num impossível morrer

Reinventar à vida
Um amor em ondas
Que abraçam as pedras
Rasgam as folhas
Com as mãos do vento
Rufando tambores
Amanhã eu fico triste
Hoje não
Hoje um amor nasce do caos

O tempo...
Recolhe as horas de vida
Mundo sem sol
Num mar sem sal
Dos pedaços de amor
Das despoesias

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A tua lembrança

‎
Wulombe (mel) : Stewart Sukuma & Elisah - Álbum: Nkhuvu -Maputo - Moçambique

A solidão sobe as escadas
Em passos mudos da memória ao sótão
Na velha caixa das tuas lembranças
O repentino olhar da flor silenciosa

O silêncio em súbita levitação se cala
Na lembrança que percorre o tempo
No escuro sonâmbulo da casa
Atravessas a tua imagem no espelho

Num sobe desce nos degraus da vida
Talvez essa lembrança seja a nossa
Na caixa dos céus a mensagem recebida
O aroma que perfuma o olhar despercebido

Pensando em nós a dor do tempo
Resmungando as pétalas perdidas
No sonho que parou de sonhar a vida
Tão emudecida seja um eco no pensamento

As lembranças sonâmbulas devoram o tempo
O que mais gostam é do meu silêncio eterno
Este teu silêncio que escrevo na outra sala
Por detrás do espelho em que tu me lês

A vida escreve o mistério de mais um dia
Na flor ressecada um riso solto
No coração escurece a chama triste
Na entrelinha que anoitece e por ti morre

Se a memória voasse pouso a pouso
Te anoitecendo além de mim
Soubesse sem despertar a noite
E meu escuro esquecimento fosse o fim   

A tua lembrança atrás dos véus
Ampara a desesperançada carta
Onde a lembrança jaz sepultada
Com a flor ressequida no tempo

As flores do campo, aos milhares delas
Cada dia no desabrochar uma lembrança
São esperanças, ao brilhares por elas
Tremulando o amor que te anoiteço

domingo, 21 de abril de 2013

No escurecer da luz do beijo



Monica Salmaso - Noite [Nelson Ayres]


A noite acende os vaga-lumes
Chove o cinza cansado de nuvem
Os pingos tortos desenham as árvores
Molhando de verde o cheiro do mato

As palavras que colho não sabem morrer
Na pele do teu corpo ainda suam

Ofusca os lumes o brilho da bela
As curvas sensuais vestidas de lua
Tua súbita vida, paralisa e gela,
Na janela o medo no farejar do vento

Indaga-me, sobre a cama, o amor que resiste
No teu corpo um adeus que nunca houve

Das seduções as formas da flor
Os segredos inatos no guardar a vida
Tão secretos como o velho mundo
Faz-se, tão bela e nua, a vida no desejo

O alento embriaga a sede de amar
O instante da saudade descompassada  

Colhes do rosto o sorriso esquecido
Dos anjos o despertar do tempo
Traz o tremor que temeu a luz
O primeiro instante do beijo

A gota ainda sangra a lucidez e a loucura
O insaciável desejo do entrelaçar dos corpos

O olhar soprou aos meus ouvidos
No espreguiçar noturno das cidades
Dorme o perfume nos teus cabelos
O desejo que mora nos teus sonhos

A ausência sopra no pensar alturas
O teu chão que falta nos meus penhascos

Da vida basta um dia de existência
Do tempo um só momento de abraços
No escurecer as luzes no beijo
Na única sombra de dois corpos

Esquece o poeta, os versos escritos
à sombra das árvores
O amor sonha navios

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O fruto proibido


   
Bau - Fruto Proíbido - Composer Amandio Cabral - Cabo verde


O outono não desperta as manhãs
Nem as árvores o vento nos ninhos
A preguiça noturna ainda canta
O sonho anoitecido dos passarinhos

Por vezes, a vida passa depressa
Num corredor abandonado
O silêncio em solidão desesperado
Ecoa em silêncio para tentar ouvir-se

Se venho colher das palavras
No amor que um dia me criastes
Do passado que enferruja o tempo
Nos relógios o dourado das lavras

Fiz do pranto o confidente leal
No teu colo fiel de me aconchegar
A vontade de reler velhas cartas
Num envelope a vontade de amar

O pássaro pousou nas palavras
Meu cansaço triste no arfar das asas
Da tua imagem que seduz meu corpo
O vazio do fruto ausente nas cascas

Morro num rio de águas noturnas
Murmurando o amor silencioso
Das margens o erosar angustioso
Na paixão contida de ser mar

Se me guardo o teu reflexo nas águas
Semeio contigo às lembranças renascido
Das flores sem o despetalar das mágoas
Na boca o sabor doce do fruto proibido

quinta-feira, 18 de abril de 2013



tribut a manuel d'novas - Baú : Zé Paris, Amilcar Chantre, Vasco Martins
Bau: Solo Guitar, Cavaquinho and Violin; Zé Paris: Bass Guitar;
Amilcar Chantre: Percussion;Vasco Martins: Keyboards,
Arrangements and Production. Cabo Verde.

terça-feira, 16 de abril de 2013

A vida é um eterno momento



Contigo a la Distancia - Christina Aguilera

A vida é um vento morno
Um intento contente de ser
Num passar despercebido
Como um clarão no dia morto
Num descontente anoitecer

No espaço do amor desordenado
Na madrugada fui íntimo da noite
No meu terminado ser do passado
Na voz do silêncio nas aves
Para ouvir o sonho das virgens

A vida é o desejo de viagem
No eterno entre a luz e a vida
No meu balançar da folhagem
Como o adeus do teu gesto
Que existe no meu adeus

Nas estrelas o brilho ausente restava
A minha face sem a tua face
A misteriosa essência dos abandonos
Da minha carne sem a tua carne
O mesmo sangue que em nós circulava

A vida é um brilho presente 
Foi uma estrela intensa
Como a tua luz cadente
Como um desejo de noite
Da tua voz rouca na minha voz 

Teus dedos entrelaçarão outros dedos
Na tua fala amorosa em outra face
Tuas pernas enlaçando outros desejos
Na dormida brasa o acender das chamas
Tangidas pela ressurreição dos anjos

A vida é um amar de repente
O querer da fé dos desesperados
Um beber a sede na gota de orvalho
Um desabrochar no íntimo da noite
Num transbordar de carícias nas bocas

Os lábios que ardem nos beijos
O brilho no cerrar das pálpebras
Entrega os ideais n'outros desejos
Tuas pernas de sol se enlaçam
Nas pernas de outros carinhos

A vida é um eterno momento
Num voo breve e num pousar
De um destino para outro lugar
Por mais que declino e resisto
O amor pousa n'outro voar

Sou quem ama e inventa os sonhos
Na distância sonhada das coisas que amavas
No palpitar da ruinaria de ter sobrevivido
Nem sabes o bem que fez o amor distante
De súbito pensara ser o teu sonho vivido

A vida é um desatar de nós
O desabrochar de mil pétalas ao vento
As lembranças que não eram nossas
Das mensagens perdidas em nós
Na memória das flores silenciosas

Em silêncio escuto a voz da dor
Nada poderei dar senão o desejo
A essência dos poderes do amor
Crio o desamor na distância
No tempo que a gente inventa

A vida é um pecado intenso de adeus
Uns partem num purificar de almas
Outros gostam do silêncio de amar
Como a saudade que parou no tempo
Num eterno levar de poemas a Deus

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Enquanto ainda fores



Procol Harum - A Whiter Shade of Pale, live in Denmark 2006

Enquanto ainda fores
Voes...
Para que as folhas
Sejam as tuas asas

Se das dúvidas nasce a descoberta
Faço contigo a tua ausência duvidosa
No cochilo do tempo da vida,
E, por vezes,
O tempo da vida cochila em mim

Não ser a inconsequência
Do ano em que morri
Subtraidamente
Do ano em que nasci

No ápice do contratempo
Se das palavras soltas no espaço
Nascem as interrogações das estrelas
Se te descubro no nascer das dúvidas
O que farei de mim?

Serei o continuo gene
Que traça a obra inacabada
Modestamente continuada
Numa escrita quase perfeita

Se no corpo o colher as palavras que escorrem
No deslizar da pele nos teus suores
As frases afoitas desvendam os sabores
A cada descoberta a nova palavra

Não me perderei nas ruelas
Da praça do poema perfeito
Nas amarras dos verbetes
No cachorro invisível

Um novo segredo dos teus amores
No acender das chamas nas entrelinhas
Fez-te a mulher amada à penumbra da noite
Sob o teu repouso a libido se cala

Serás o clima que me escolhe
O tamanho do meu cobertor
Daquela palavra exata
Que o nó da garganta desata

Mesmo que o sim
Seja talvez insistência
Faço-te meu novo fim
Na palavra que recomeço

Diante da tua beleza deitada
Sobre enluarada pele fraseada
O verso que te desnudo
Respira-me profundo a palavra

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Se todas fossem Cecília



Wurttembergisches Kammerorchester Heilbronn - A Piazzolla - Las estaciones -Otono porteno -Violín Arabella Steinbacher


Teu pensamento ficou no tempo
Renovado a cada sensação descrita
Como se fora hoje em todas as cores

Tua inspiração renasce como as flores
Aquelas que do jardim não foram colhidas
E em seus versos exalam o teu perfume

Trazes em tuas mãos a transparente alma
Aos muitos olhos que não vistes
Almas que não acreditaram que tu existes

"Teu bom pensamento longínquo me emociona"
Torna-me menos ignorante de tudo que és
Mas resigno-me do todo que te eterniza

Teu ensinamento continua pelo tempo
Entre as palavras escolhidas com maestria
A cada descrição perfeita humildemente diria

"O vento do teu espírito soprou sobre a vida
E tudo que me era efêmero se desfez
E ficaste só tu, que és eterna..."

Teu canto existe a cada instante
E a tua poesia está completa
"Não sou alegre, nem sou triste",
Tu és eternamente poeta.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A dança das sombras


The Dance of Shadows (Hanami - Butoh dance) Este vídeo mostra cenas do filme alemão "Cherry Blossoms - Hanami", um poema bonito e delicado sobre o luto.
"Todo mundo tem sombras dentro.  Apenas mantenha-os...  mantê-los..."

No chão que me petrifico
Do ar que me faço nuvens
Na montanha que me rarefaz
Da árvore que me transplanto

No voo em que nasço pássaros
Dos muros inertes, o olhar das ruas
Das vidas que giram o mundo
Gira mundo das muitas sombras

Faz-se a luz nessa perfeita geometria
Teimo em refletir meus sentimentos
Acima e abaixo do solo em que germino
No nascer das sombras em própria vida

Num gesto suavemente sublime
No compasso dos contratempos
Dançam as sombras vivas
Renascidas de uma minguante lua

O que me torno em todos os entes
Velhas sombras dantes que os homens
Atentas aos movimentos de todos os sóis
Que fazem vivas as sombras dos mortos

Nos gestos ecoa a voz da música
No bailado de todas as sombras
Rompem no tempo a dor ausente
No diálogo da dança das sombras

Na música que nos eleva ao tempo
Nos passos que nos faz dança
Renascemos acima da vida
Nas almas que unem às sombras

Do passado que um dia existimos
No meu presente que inexistes
Do meu futuro anonimato
No tempo das sombras existiremos

Sombras de todo futuro e passado
Desde a criação de todo universo
Dos corpos que retornaram ao chão
Dancemos as sombras nas luzes eternas

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Onde desenho a lembrança



Jimmy DluDlu - Walk Of Life - Zavala - Moçambique
Nasceu em, Moçambique, entrou na música nos anos 70, nos princípios dos anos 80, imitando as músicas do Wazimbo, o seu ídolo com sonho de ser músico profissional, deixou o país nos princípios da década para Swazilândia, Botswana e depois para África do Sul, onde fez a licenciatura em música , ganhou a fama com seus álbuns "echoes from the past" editado em 1997 e "essence of rhythm" editado em Junho de 1999 .


Os passos de um dia qualquer
Perderam-se de noite na lua
A súbita flor que tomba
Na alma entristecida de céu

O amor noturno caminha no ontem
Nas ruas do teu silêncio
Onde desenho a tua lembrança
No caminho se fez eterno

O sonho que me devora
Num canto escuro da alma
O pensamento que cai da pétala
Do vestido florido de memórias

Inquietas razões da insônia
Ecoam os ruídos no sótão
São lembranças no bater das asas
No voo solitário do não sofrer

Impuro tempo bebido de outono
A emoção que a vidraça abafa
As tuas canções enlaçam a carícia
Ao gozo incerto no contratempo

Este amor dentro do drama
Recria o que ainda existe
De real amor imaginário
No céu entristecido da alma

Só quando o teu macio da pele
Deslizar no leito que desperto
Dormes o amor em meu sono
O sonho de um rio que dorme o mar

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ensina-me a voar



Hable Con Ella  [Pedro Almodóvar] of "Raquel" By Rufino Almeida & Africa Nostra, from the album "Tôp d'Coroa" by Bau.

Elevas na ave ferida
No teu voo incompreendido
Na pura liberdade de ser

Tecendo no céu as palavras
Em rede de linhas frágeis
O medo que desampara o mergulho

Não voes para os lados
Não voes para a frente
Voes para dentro de si

No afã amoroso da vida
O vento adverso nas asas
Faz do equilíbrio o mais belo voo
Em ti a criação mais valiosa

A lua no céu da boca



Hable con ella [Pedro Almodovar]soundtrack [Soy Marco]

Na florada que sobrevoas
O mistério das tuas matas
Busco nas sombras do vale
A semente em que germino

És o voo que se anuncia a esmo
No caminho do vento que se abre
Entre o espaço do céu e das aves
O vazio que cresce dentro de mim

No abismo que me entrego às cegas
Na tua lembrança amorosa
Desperta o meu universo suicida
O tremor despido das tuas vestes

Das tuas águas nasce-me a sede
No palpitar contido nas corredeiras
Deitas o poente do teu corpo
As linhas curvas do horizonte

No céu da tua boca ecoa
O desejo que toca o beijo
Na tua respiração emudecida
O infinito gozo do teu corpo


Ainda que a minha voz
Caída nas folhas molhadas
A espera pelo teu gosto
Renasço no teu sussurro da noite

No caminho que te percorro
Minha espera se perde no abraço
Sobre a tua pele arrepiada
No tato da minha mão que não sacia

No êxtase da tua vida embebida
Deito o meu sonho submerso
N'outro lado da tua tempestade
Dormirei o teu sono das divindades

Derramei o chão que fluem teus desejos
Na imensidão do sono dos afogados
Das pétalas a ânsia do teu aroma  
Durmo o eterno na saudade do teu sonho

Quando tu fores de mim
No meu voo de sobrevida
Levas a saudade nas asas do vento
Deixas na morte o ser que desconheço


quarta-feira, 27 de março de 2013

As cartas de amor ao eterno



Paco de Lucía Concierto Aranjuez - Adagio

 I
Não posso libertar o delírio
No templo de todas as sombras
O amor que em mim criastes
Na clausura do que sonhei ter

II
Alço o voo de todas as promessas
Nas lágrimas que me sangram
No tormentoso labirinto do tempo
Nas emoções que brotam a pouca luz

III
No obscuro da paixão indecifrável
Sofro a dor nos outros olhos
O triste canto que hás de ouvir
No pássaro que em mim gorjeia

IV
No engano chegaram as mágoas
Nas lágrimas da insensatez
No desespero mortal de uma paixão
A cruel ausência que hoje causas

V
No tempo de agora o sofrimento
De uma serenidade apaixonada
Se encante na luz dos teus olhos
Uma nova afeição tão desejada

VI
Nesta clausura de insuportável dor
Sem poder debruçar nos teus olhos
Atravessastes os mares para perder-me
No desencanto de uma afeição eterna

VII
Na mais vislumbrante canção
Nos lábios os beijos perdidos
Despertos na bonita manhã
Perdidamente deslumbrada

VIII
Nos pulsos em que me corto
A esperança escorre em meu peito
O venenoso amor que agoniza
Da espera que nunca voltas

IX
Quando pousas no meu olhar
A boca dos meus desejos
O cheiro da pele que tu proteges
No vento que em se acaricias

X
Despertas o que vive em meu peito
O fantasma dos mil tormentos
A certeza que me abandonas
No caminho mais longo da morte

XI
Nas pedras que rolam no tempo
Marcando a aspereza das mãos
Deito as palavras que escrevo
Adormecidas na poeira do sempre

XII
Bem sei que nada sabes
O lamentar dos impulsos do coração
Descobrir no prazer da vida
O ódio e a aversão das tormentas

XIII
Se bem sabes que nem sei quem sou
Se o amor existe nas tuas cartas frias
Nas juras secretas do teu amor
Os suspiros, as lágrimas e a minha dor

XIV
Criastes o encanto da delicadeza
Das lágrimas que minh'alma chora
O sabor nas bocas dos pescadores
A doce morte em todos os mares

XV
Na metade do papel em branco
O coração que é teu se comove
Repetindo as mesmas palavras
Loucamente morres em terminá-las

XVI
Fostes nas palavras inacabadas
A saudade dos versos que escrevo
A poesia que desnuda os corpos
O amargo adeus de sermos nós

XVII
O sentimento sincero e ardente
Na metade em branco das cartas
Agonizo o pranto para lembrar-te
Somente no amor sou por inteiro

XVIII
Em fadada sina vier a morte
Nos olhos repousando a mortalha
Furta-me daquele que se aferra
O amor que fui sobre a terra.

XIX
Nunca o saberás do amor
Como a poeira que nos ignora
O que da própria vida transcende
As cartas de amor ao eterno

http://cdn.luso-livros.net/wp-content/uploads/2013/02/Cartas-de-Amor-de-uma-Freira-Portuguesa.pdf


domingo, 24 de março de 2013

No obscuro desejo


Al Di Meola - Misterio

Não posso libertar o delírio
No templo de todas as sombras
O amor que em mim criastes
Na clausura do que sonhei ter

Alço o voo de todas as promessas
Nas lágrimas que me sangram
No tormentoso labirinto do tempo
Nas emoções que brotam a pouca luz

No obscuro da paixão indecifrável
Sofro a dor nos outros olhos
O triste canto que hás de ouvir
No pássaro que em mim gorjeia

Nos pulsos em que me corto
A esperança escorre em meu peito
O venenoso amor que agoniza
Da espera que nunca voltas

Quando pousas no meu olhar
A boca dos meus desejos
O cheiro da pele que tu proteges
No vento que se acaricia

Despertas o que vive em meu peito
O fantasma dos mil tormentos
A certeza que me abandonas
No caminho mais longo da morte

Nas pedras que rolam no tempo
Marcando a aspereza das mãos
Deito as palavras que escrevo
Adormecidas na poeira do tempo

Fostes na palavra inacabada
Na saudade dos versos que escrevo
Na poesia que desnuda no corpo
O  doce engano de sermos nós

sábado, 23 de março de 2013

Unámonos para Horadelplaneta Horadoplaneta! Earth Hour 2013 is in the Americas!


Na metade em branco da carta



Last Tango in Paris - Ikuko Kawai


No engano chegaram as mágoas
Nas lágrimas da insensatez
No desespero mortal de uma paixão
A cruel ausência que hoje causas

Nesta clausura de insuportável dor
Sem poder debruçar nos teus olhos
Atravessei os mares para te perder
No encanto de uma afeição eterna

No tempo de agora o sofrimento
Por uma serenidade apaixonada
Se encante na luz dos teus olhos
Uma nova afeição tão desejada

Na mais vislumbrante canção
Nos lábios os beijos perdidos
Despertos na bonita manhã
Perdidamente deslumbrada

Bem sei que nada sabes
Lamentar os impulsos do coração
Descobrir no prazer de viver
O ódio e a aversão das tormentas

Se bem sabes que nem sei quem sou
Se o amor existe nas frias cartas
Nas juras secretas de um amor
Os suspiros, as lágrimas e a dor

Criastes o encanto da delicadeza
Das lágrimas que a tua alma chora
O sabor nas bocas dos pescadores
A doce morte em todos os mares

Na metade do papel em branco
O coração que é teu se comove
Repetindo as mesmas palavras
Loucamente morto sem terminá-la

Do sentimento sincero e ardente
Na metade em branco da carta
Sobrevive o vazio para lembrar-me
Só se vive no amor por inteiro


quinta-feira, 21 de março de 2013

Emílio Santiago fica a sua obra!







Emílio Vitalino Santiago, nascido no RJ, em 6 dezembro de  1946,
filho adotivo, ele diz que deve tudo que conquistou à sua mãe.
Começou a trabalhar aos 13 anos.
Frequentou a Faculdade Nacional de Direito na década de 1970,
onde formou-se por insistência dos pais.
Começou a cantar em festivais universitários
nesta mesma década.
Nunca mais parou de cantar e encantar com sua voz.
Foi o homem, fica a sua obra!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Ela chegou inesperadamente



Bau Inspiração (Rufino Almeida) Cabo Verde-Noite de Cabo Verde no Zènith
Zènith de Paris 28 Avril 2001


Ela chegou intensa e lenta
Como quem devora todos os sentimentos
Muito além de todas as músicas
Muito além de todos os textos
Acima de todos os pretextos

Em verdade...

Para o espanto dos excêntricos
Ela chegou feito o silêncio que escuta o vento
Sobre as folhas, sobre as lajes, sobre as telhas
Ela chegou sobre mim e meu nefasto tempo
Sobre a ameaça, sobre a dor, sobre o amor

Ela chegou sobre a falsa liberdade
Sobre os pedaços do coração
que rolam nos degraus da escada

Ela chegou sobre todas as máscaras
Sobre a disfarçada delicadeza
Sobre o duelo de todas as neuroses

Ela chegou sobre o atrativo e o assustador
Sobre todas as ambiguidades das relações
Sobre o luxuoso e  sobre o paupérrimo

Ela chegou sobre todos os desertos e os oceanos
Sobre todos os medos que fazem parte da dor
Corra, proteja-se!

E quem disse que falo do príncípio e do fim
Se o inevitável é a morte?
Falo da chuva sobre a fragilidade humana

domingo, 17 de março de 2013

Se espelho, espelho teu



Astor Piazzolla, Verano Porteno - Summer Trondheim Soloists. Artistic Director: Øyvind Gimse. Soloist Soyoung Yoon, violin. Hamardomen. Samuelsen Productions.


Tuas cores pintaram o arco-íris
No corrimão de outras vidas
A tua paz, a vida, a tua alegria
No desenganado pote dourado

Quando o vazio preencher a alma
No calor das labaredas os estalos
Os olhos de todas coisas te olharem
Sejas a alma dos desejos mais íntimos

Na calmaria de todas as velas
No sol que morre o poente à distância
Renasça da profundeza do teu horizonte
Tão nua, tão perto da lua de si mesma

Dentro de ti mora a tua dona
A felicidade que corre nas veias
Sangra por ti todos os teus desejos
A liberdade de todos os teus sonhos

No reflexo cotidiano da vida
No mundo pronto de ser feliz
Gritas: Espelho. Espelho meu.
Há quem se pensa mais que eu?

Na razão de ser da própria vida
Aprender a amar-se para amar ao outro
Para ninguém que te aprisiona vale
A felicidade que tu conquistas hoje

sexta-feira, 15 de março de 2013

A oração dos tempos



Violon - Ikuko Kawai - Tasogare no Waltz


Saciei em ti o sabor doce do fruto
Na amargura do meu tempo
A melancólica palidez humana
Na indiferença cruel que silencia

Quando na oração dos tempos
No teu corpo fazia a nascente
Nos teus olhos a água cristalina
Na boca do peixe que me flutua

Repouso no sorriso dos teus lábios
A tua felicidade em que me procuro
No desejado dia amanhecido
Nas preces à compaixão dos homens

Lamento as guerras do meu medo
Fartei-me na vitória dos mortos
Da tua carência vivi o meu desejo
Dói-me a doença que não se cura

Na flor da terra de outros povos
No desprotegido semear do coito
As crianças morrem de infância
Na gravidez desumana da alma

Quando na oração dos tempos
Os templos pouparem sua herança
Nas tuas mãos abrirem os oceanos
N'outro continente repousar as preces

Se de um lado há dor e sofrimento
Do outro lado basta-me de indiferença
Jamais morrerei em mim tantas crianças
Na soberba indiferença dos povos
~.~
"A África além de serem afetados por inúmeros problemas, como a fome, conflitos, pobreza também passa por uma imensa crise de AIDS que teve inicio dos anos 80, onde que a doença atinge todas as classes sociais e já matou mais de 20 milhões de pessoas em varias regiões da África do sul."  A epidemia de AIDS condena, principalmente, as crianças que nascem contaminadas durante o parto.  Centenas de crianças morrem por falta de tratamento e as que são tratadas morrem por falta de medicamentos.
http://www.africaurgente.org/epidemia-de-aids-na-africa-video/


quinta-feira, 14 de março de 2013

O amor eternizado



Bau - Filosofia - D'abord repéré comme accompagnateur de CESARIA EVORA (à partir de 1991), puis son directeur d'orchestre (de 1995 à 1998 -- il est l'auteur des arrangements de l'album « Cabo Verde »).

Se te deixo partir para outros lábios
Para que fiques em mim no último beijo
O teu sentimento se vai para outras vidas
Para deixar-te no coração em eterna morada

Se te perco do encontro a paixão inconcebida
Faço de ti a profecia no monge silencioso 
O eterno que medita no teu olhar infindável 
No teu peito toca ao longe a minha triste sina

Se me faço chuva em queda suicida
Nada peço molhando os teus cabelos
Na pele sedento em percorrer teu corpo
Umedecendo a minha secura nos teus lábios 

Se te liberto para eternizar a última poesia
Te aporto no ancoradouro das ilhas morenas
Na tua quietude que o vento arrasta
Os pedaços da rasgada folha que escrevo

Se te faço canção para que morras em mim 
Com outra face dances até a noite enlouquecida
Girando, girando os corpos até a inveja lasciva 
Para que as causas esqueçam os seus mortos

Se te deixo ir como os veleiros silenciosos
Tua face de lua encoste n'outras faces de sol
Te possuirei nas vagas, no voo das aves
Nas lamentações da tua voz ausente

Se te faço fé na escuridão desesperada
Para que sejas a gota na manhã orvalhada
Das terras secas desabrochando em outros leitos  
Poderei partir de mim a tua liberdade eternizada

quarta-feira, 13 de março de 2013

A alma entristecida



川井郁子 Violon Ikuko Kawai - Still Love

A saudade semeia calada no peito
Na dança do fogo a canção do vento
No silêncio trancando os sonhos
Nas frias lágrimas dos mortos

Inquietas almas na ânsia entristecidas
Foge o fantasma do passado tormentoso
Transfigura a vida no futuro espanto
Dos anjos, dos santos e dos profetas

Enluarando a alma esmaecida
A noite repousa em teu corpo
Banha-se nua no corpo de chuva
Abraçando os teus sonhos alados

Nos olhos o brilho de estrelas
Os passos rápidos nas lentas paisagens
Nos caminhos que se fundem na noite
Alguém sofre e outros se divertem

Na cidade adormecida de esperança
Outra estação estaciona fatigada
No comboio enevoado de outono
Os corações guardados de inverno

Ainda que a morte da ira dos justos
Seja o pecado das celestiais promessas
Das maldições sou o rebelado anjo
Na inconsciência maléfica do mundo