domingo, 10 de julho de 2011

Nas cores do retrato


O inverno cobre a noite de frio
Lentamente chove a melancolia
Persiste a solidão no longo caminho
O materno desejo da tua companhia

Pelo escorregadio gélido vidro
A saudade lacrimeja em gotas
Admirada a paisagem observa
A janela emoldurando a moça

Nas fotos como vou buscando
Só um instante de reencontro
Encontrar-me ouvindo a tua voz
Meu nome se abrindo encanto

No calor das tardes de sol
Pelas vertentes divisórias da casa
Como as linhas da palma da tua mão
Revelam teu plano da criação

Em cada aresta transparece a magia
Das cirandas ingênuas de alegria
Rodeando em pétalas de afeto
Floreando a minha rosa mais querida

Na suave sombra do dia
Afagas a mão entre o cabelo
Teu colo para o aconchego
Na cantiga que embala o sono

Repouso no caminho do sonho
As infinitas lembranças abraço
A tua graça segura das companhias
Refúgio de todas as minhas ventanias

O inverno me cobre a noite de frio
Lentamente chove a melancolia
Persiste a solidão no meu longo caminho
O materno desejo da tua companhia

sábado, 14 de maio de 2011

A cidade em que nascí


A cidade em que nascí era plena de cores
O sol nascia avivando o verde das folhas
A ventania corria solta pelas alamedas
Verdejavam as árvores e os pássaros multicores

A cidade em que nascí era de casas abertas
Se avizinhavam tranquilas em ruas alegres
Pardais em sinfonia ao raiar de todo dia
Ficavam o leite e o pão nas manhãs dos portões

As crianças inventavam livres brinquedos
A bola subia pela fachada das vidraças
Na praça o limite do céu era das pipas
No centro do alvo a guerra dos estilingues

A cidade em que nascí o bonde ainda passava
Entre ruas estreitas com muito orvalho
Passava aberto tilintando a sineta
Revoando as folhas por entre os trilhos

Imensos casarões ladeavam as avenidas
Ostentando a herança dos cafezais
Muitas quadras eram dos cinemas
Piscando luminosos de novos filmes

A cidade em que nascí raiava o dia
Com andarilhos alegres de baile
De tanta dança cansados da noite
Tranquilos na manhã buscando o sono

A cidade em que nascí não mais existe
Ao longo do tempo as cores se perderam
De cinza e preto tingiram os pigmentos
Sem limites edificaram arranhando o céu

Se ilharam as casas pelos altos muros
Por detrás das grades observam as janelas
Transparece ao sol o apuro dos rostos
As estrelas da lua obscurecem na cinza névoa

A cidade em que nascí já não aquece
Nos corações ficaram o frio do concreto
Nas pistas de rolamento o jogo de paciência
Toda violência transbordou seu limite

A cidade em que nascí nunca dorme
De insônia crônica de submundo
Sem noites os dias vão violando
As crianças esquecidas de infância

A cidade em que nascí não mais existe
Não se reconhece pelo passado
Na cidade em que nascí não mais existo
Somos o anonimato, estranhos um para outro

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Do Divino Rei sou realengo


Rio de Janeiro - Realengo 07/04/2011
Na aurora de um novo dia
Não tenho mais os sonhos
O sorriso livre que trazia
Perdeu-se no pavor medonho

O universo que aflorava em vida
Na alegria das cores de um jardim
A desprotegida paz foi traída
Sem como resgatar a vida do fim

Desbravador dos sete mares
Infante régio dos continentes
Aprendiz dos grandes navegadores
Do Divino Rei sou realengo

Se tiras da existência ainda jovem
Do botão sem desabrochar a vida
Rapinas as asas de anjo como provém
Cairás em solo sem nome homicida

Renegas a dor e a saudade aos meus
Pelo desgosto do amor, do sorriso e da flor
Hoje me faço em paz em Jesus
Do Divino Rei sou realengo


(ps. minha poesia é pequena diante da dor,
modestamente concedo as palavras a eles.
Peço apenas que orem por eles.)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Cantiga de amar


Há uma cantiga no ar
Uma pequena sereia
Colhendo estrelas cadentes
Embalando as vagas do mar

Pequenas sereias no mar
Colhendo cantigas cadentes
Reluzentes nas vagas
Embalando as estrelas no ar

quinta-feira, 10 de março de 2011

Para se ter um grande amor


Para se ter um grande amor
É preciso estar distraído
Ser pego de súbito
Enxergar além da imagem
Reconhecendo o conteúdo

Para se ter um grande amor
É dar um presente a quem se ama
Sabê-la feliz pela modesta surpresa
Compartilhando esse momento de alegria
Sem que ela perceba que é o teu aniversário

Para se ter um grande amor
É pulsar a música no sangue
Galgar é preciso além dos corpos
Navegando os olhos nos olhos
Abandonando o corpo no prazer da alma

Para se ter um grande amor
É preciso saber-se parte do outro
Pelo desejo de amanhecer juntos
É preciso saber-se mútuo
E que a morte um dia irá separar

Para se ter um grande amor
É preciso um conteúdo de valores nobres
Sem esquecer do lado prático e mundano
Que o que se fez no passado não se desfaz
E dizer o que sente é a mais pura verdade

Para se ter um grande amor
É preciso ter paciência
Esperar que amor um dia aconteça
Sem querer insistir em ser correspondido
Que só se pode amar quando se tem amor

Para se ter um grande amor
Não basta prometer para se esquivar
É saber que o lado bonito fica cansado
É preciso respirar a própria identidade
Cada qual no seu devido momento se ser

Para se ter um grande amor
É preciso muita liberdade
É apoiar sem submissão
É soltar as amarras da embarcação
Com as velas ao vento querendo voltar

Para se ter um grande amor
É preciso fazer uma retrospectiva
Saber se o grande amor já passou pela vida
E antes de ter, é preciso ser um grande amor
Antes que a vida acabe para se viver um grande amor

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A saudade


Nem sempre posso estar presente
Nem sempre estou ao seu dispor
Posso estar ausente
Mas é teu o meu amor

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O amor perfeito


No banco de madeira
Num jardim fora do mundo
Jaz em ciclo perfeito uma folha
Se fora o tempo e tudo se cala

A existência em absoluto silêncio
Para um minuto de saudade e de dor
Indiferente ao redor gira o planeta
Tolamente sem saber para onde

As mãos escolhem as palavras
Unindo-as em longos fios no tear
Da alvura brindar-lhe o colorido
Pelo amor que gerou a vida

Sobre a cabeceira um livro eterno
De um amor mais que perfeito
O branco do meio ao fim das páginas
A saudade escreve com as mãos ausentes

No tear a alvura dos longos fios
Tece em memória de uma vida
Pairando sobre o rosto Divino
O manto de um sagrado amor.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Na janela do tempo


Passa o vento sorrateiro
De mansinho pelas arestas
Em silêncio pelas frestas
Sem farfalhar as folhas no canteiro

Emoldura a janela a mulher debruçada
No olhar o infinito que não alcança
Pensamentos vão e voltam na balança
Os passarinhos reverenciam em revoada

Se o tempo é o melhor remédio
Com as horas marcando o cansaço
Guardo em seu peito o descanço
Despertando em descompasso o tédio

Aprendi a mentir que te esqueço
A enganar-me em outros enganos
Desconstruindo as formas pelos anos
Na gota de tua essência ora cresço

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma flor sobre os escombros


E o mundo se fez
Com formas e ciclos
Invertendo os sentidos
Na linha do equador

Elevou continentes e cordilheiras
Aprofundou o solo e os vales
Vestiu com gêlo, areia e florestas
Derramou nas águas o doce e o sal

Em quatro estações o clima
Uma excelência em cada uma
Se verão uma primavera
No inverno do outono

E a vida se fez bonita
E o homem por consequência
Criando sonhos, o impossível
O universo paralelo das necessidades

E a impermanência se faz perfeita
Como os sonhos se transformam
Diante da beleza do imperfeito
Deixamos uma flor sobre os escombros
~.~
Em solidariedade a Região Serrana do Rio de Janeiro
” Os políticos têm memória de mandato de cinco anos, a Terra de milênios. ”
Olivier Lateltin

sábado, 22 de janeiro de 2011

O Eclipse


Corre-corre, pula-pula, brincam as crianças
No jardim de flores farfalham as folhas
Entre as árvores passarinhos saltitantes
Radiante faz o dia a dia dos passantes

Um espanto paira sobre as cabeças
Pouco a pouco desfazem as escolhas
Entre as poucas nuvens distantes
A penumbra cobre os olhos diletantes

O encontro marcado de esperanças
Escrevem rimas no branco das folhas
O lume dourado e o prateado consonantes
Personificam um corpo e uma alma rutilantes

Os seresteiros esperançosos de lembranças
Numa dança unem pares sem escolhas
No meio do céu dos astromantes
Embalem cantigas apaixonantes

O sol clamando os poetas de esperanças
No coração a lua inspire a quem olhas
Sem o inverno das paixões lacrimantes
Da solidão resguarde a inspiração dos amantes

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Memória


Dormes amena serena
Teu sono suave embala
Os sonhos de outrora pequena
Os segredos guardados na mala

Muitos mistérios na descoberta
Num universo a cada lembrança
A emoção que o coração aperta
Reaquecendo aquela esperança

No livro a estória escondia
As viagens com mil destinos
A cada página uma alegria
Da bailarina aos violinos

Ficou na memória infanticida
O sonho simples de ser feliz
Pelo que ora somos esquecida
Por tantos quesitos nos contradiz

Intrínseca natureza nos conduz
Na insaciável certeza do ser
Buscando razões que nos induz
Afinidades para o amor acontecer

Na lógica razão do medo
Nos torna intransponível
Entre mulharas de degredo
O simples em desejo impossível

O mundo tão bonito
A natureza tão perfeita
O amar simples explícito
Nos tornamos em desdita

O próprio amor


Hoje não há estrelas
O ar úmido paira abafado
Nas torres não há sentinelas
Estático, um coração apertado

As luzes cintilando na água
O depois da chuva na rua
O farfalhar de folhas que apazigua
A contínua ausência da lua

Tão somente uma estrela
O guia para um norte
Uma janela sem tramela
No olhar sem rumo ao horizonte

No caminho sem ter para ir
Guardando pedras no ventaval
Um pranto disfarça em sair
Do caule o espinho arestal

O pensamento entre tantas vozes
São presenças que locomovem
Ausentes de afeiçoar o sonho
Num encontro que se contravêm

Um sonho sem parceria
Num beijo sem a outra boca
Na constância em viver agonia
Uma arejada flor que sufoca

Se resta ao pranto o alívio
Se falta a estrela ao destino
A vida se faz em declívio
Coube ao divino o desatino

No roçar de mãos solidárias
Apenas os corações sem rosto
Nas confissões solitárias
Solidão em sublime interposto

Magestosa se faz companheira
Dirimindo todas as mentiras
Em outrem que a si imbuíras
Revela em si a busca verdadeira

Encontra, o amor dorme sereno
Rara dádiva para outro ser feliz
Ileso o corpo moreno
Na alma persiste a cicatriz

Cabe em si mesmo os destinos
Saber-se o porto seguro
O corpo e alma genuínos
Só o amor lance em futuro

sábado, 11 de dezembro de 2010

Esse Desejo


Desejo um Feliz Natal, mesmo que simplório
Mas com sentimentos profundos e intensa empatia
Sinceros, transparentes e verdadeiros

Desejo que a mesa seja farta, bonita e enfeitada
Sem que sejam esquecidos a cozinheira,
a lavadeira, o cachorro, o gato e a missa do galo

Desejo que diante da ceia sempre caiba mais um
E alguns lugares estejam reservados para os ausentes
Pois estão sempre presentes em nossos corações

Desejo alegria, harmonia e nenhum porre
Entre Drink's e a alegria estejam as canções

Desejo os presentes mais criativos até
Aos mais sofisticados eletrônicos
E acima de todos os presentes
Que o mais simplório entre eles seja o amor

Desejo o sabor das guloseimas sem culpa
Que mais que o calor seja o frescor da chuva
Para depois na madrugada o céu se abrir
Pleno de luar cintilando todas as estrelas

Desejo no amanhecer mais fôlego e resistência
Pensamento voltado aos sonhos do Ano Novo
Que sejam poucos mas fiéis e sem tamanho
Mas que em todos os sonhos contenha a felicidade

Desejo que todos eles se realizem plenos
Senão todos, apenas alguns, mas se nenhum, sem neuras
O sonho não morre, como tudo, na vida ou na morte, se transforma
Reconheçamos no final do ano que estamos íntegros
Afinal a vida continuará sempre em movimento

Desejo a sorte de todas as simpatias e cores
Vestindo branco, dourado ou pulando ondas
Num banquete de frutas sobre a areia
Tabuleiros de búzios, tarot e muita proteção
Muita paz e esperança para o ano inteiro

Desejo um pouco mais que o Feliz Ano Novo ou Velho
Que nele esteja o Feliz Aniversário
Aquele bolo necessário, a velinha simbólica
Mas ao teu redor tenha inúmeros, dezenas de amigos
Comemorando mais uma árvore em teu pomar

Desejo um Ano Novo pleno de musicalidade das palavras
Que a cada sílaba que entoas suavemente encantas
Poesia e melodia juntas na sonoridade das canções

Desejo a sensibilidade sobre a pele de uma flor
Em harmonia perfeita, pétalas, pólem, aroma
Se fazendo rarefeita entre bemóis e sustenidos
Tal sopro de vida, corpo e alma em maestria

Desejo que se faça em poesia para o novo ano
Mãos hábeis, pensamentos a mil
Os versos em folhas ao vento em teu jardim

Desejo muito desejo de inspiração e desafios
Aos céus que sempre agradeço pela luz em companhia
Graças a esses desejos, desejo no Ano Novo, o que tenho
Um primoroso Feliz Ano Velho

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Escolha


Um elo somático para um mundo pronto
Explica -se tudo aos donos de nossas escolhas
Se tudo escolhemos para sermos escolhidos
Seremos especialistas salvo de nós mesmos

Nascimento, vida e morte
Os meios se justificam aos extremos
Em curso na estrada da frágil vida
A origem, um caminho, e o comum destino

Turistas, peregrinos, viajantes
Boas escolhas em serem escolhidos
Escolha, escolhas, escolham
Principia a grande viagem pela vida

Se turistas somos acariciando o ócio
Origem e destino no afã do retorno
Aos olhos a beleza e tudo se faz efêmero
E a face oculta da vida reles despercebida

Se peregrinos somos o exercício de fé
Empenhando-nos a uma alma pura
Das tentações e perigos nos esquivando
Do fracasso saberemos pouco dos pecados

Se viajantes somos com escassa bagagem
Aos olhos da compaixão, a bondade, o medo
A coragem de seguir além do destino
Deixamos o melhor de nós mesmos
Viajantes levaremos o aprendizado

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O Abraço ausente


Sob um céu sem estrelas
Nas noites urbanas e ruas vazias
Indiferente aos ruídos indistintos
Um rosto procuro no anonimato
No tempo consagrando as horas

Tão longe, tão longe...
Imagino o som do quebra mar
Sentindo a passagem do vento
No ar o cheiro da salinidade

Pudera sentir teu rosto
Vê-la olhando para o céu
Procurando o brilho dos teus olhos
Quiçás encontrá-lo entre as estrelas
Realizando a alegria pelos sonhos

Não brilhas se dormes como deusa
Com as pálpebras cansadas pela espera
Com teu rosto despido do sorriso
Reluzindo os cabelos longos como a seda

Pelo semblante sereno em repouso
Sigo ao encontro de um par de mãos
No gesto mudo da mão o vazio
Na outra palma a saudade
No silêncio se entrelaçam na solidão

A razão desconhece os mistérios
Como tudo é tão bonito como a vida
Tanto amor de não querer findar
Poder viver por tamanha beleza
Mesmo morrendo nas entrelinhas

O Desejo de amar


Fecho os meus olhos para ver-te
A cada linha delineando teu corpo escrevo
Na suavidade dos contornos o meu insano desejo
Transcendendo teu físico nas múltiplas mulheres

Para cada mulher que em teu corpo existe
Fragmento minha essência, multiplico e dou crias
Vivendo a poesia em ti a cada mulher que ama
Brotando de um único tronco em variadas orquídeas

Fecho meus olhos num abraço amante
Corpo a corpo, coração no mesmo compasso
Sem palavras, promessas, a entrega somente
Mesclando as almas na mais pura das essências

Sou um náufrago refém em mar revolto na tua paixão
Mergulhando em teus abraços num caminho sem volta
Desejando-te mais que o sonho, um suspiro, uma madrugada
Ser o teu âmago e seu culpado, cúmplice e condenado (pelo amor)

O luar refletido na pele dos corpos difusos
As mãos desvendando nossos segredos
Teus aromas aflorando os desejos
Em cada sabor que doas o meu beijo

Derramarmos sobre a flor o orvalho da manhã
Saciar nossa sede de todos os desertos da solidão
Quando as forças cederem subornando o anseio
Na paz cúmplice dos amantes suplicando trégua

Estaremos em órbita admirando o planeta
Inexiste o Tempo, não há noite ou dia
Tua presença o único encontro e destino a ser vivido
Renascendo a todo instante o profundo desejo de recomeçar

Nos lábios que se beijam em perfeita alquimia
Sede e saliva, Amor e desejo, harmonia
Emerge das entranhas o nosso ensejo
De temperança na mistura entre almas

Deslizam pausadamente sobre a Tua pele úmida
Num beijo contínuo os lábios pelos teus contornos
Somos a intensa cumplicidade entre dois corpos
Temos o maior tesouro entre os Desejos.
O infinito desejo de amar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sensação objetiva


Que palavra exprime
Entre múltiplos significados
Perdendo-se ao definir meu sentimento
Entre a repulsa e o desejo de ser teu

Que palavra seria plena
Numa somatória de letras
E a cada letra uma sigla de um nome
E a cada um deles um sentimento único

Que palavra seria eu mesmo
Quando desejar ter e ser e não conseguir
Com um gesto mudo entre mil palavras
Permaneço surdo ao dizer teu nome

Que palavra define o aroma de terra
A relva molhada e o amanhecer
O teu cheiro na cama entre os lençóis
E a falta de calor na tua ausência

Que palavra caberia justa
Vestindo a mão atrofiada em uma luva
A revelia sentenciando a forma abstrata de ser
Na cega justiça dos homens em ter

Que palavra define uma atração
Se ao corpo não interessa o desejo
E ao próprio sentimento se supera
No afã materialista da útil praticidade

(..........................)

Que palavra define o nada
Traduzindo o engano em si mesmo
Na inteligente forma de pensar
Muito acima do próprio amor

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Canção de amor


São eternos seus momentos
São mágicos teus gestos
Das teclas, o branco e preto
Brando encanto nas oitavas

Silenciosamente pausas
Desejosos de harmonia
Nessa canção me perderia
Na musicalidade do teu corpo

Meu coração fica a mercê
Nas vibrações das cordas
Tatuo em minh'alma tuas clavas
Pedindo asilo em teu sentimento

Pelo teu amor divino
Sou teu anjo torto
Entrego o meu corpo
Meu par de asas

Em espírito murmuro a prece
Pelas mãos que fazem sonhos
Teu rosto em riso que aparece
Anunciando em versos meu destino

Pelas palavras


As palavras que ontem voavam soltas
Sem sentido como a vida esguia
A vontade da alma quando o corpo seguia
Estas mesmas palavras aguçando o presente

Agrupando-se, declarando a tua falta,
impunemente...
Denunciam sem lógica distância o teu amor
N'algum lugar extremo, no vazio das minhas mãos
Rebeldes palavras num jogo de frases em nãos

Formando um sentimento de vida própria
Represando águas, refletindo a tua ausência
Numa superfície de sinônimos da minha imagem
Reescrevendo as gotas de chuva sobre a tez
Mesclando-as em lágrimas tais poesias e canções

Criando aos milhares os meus sonhos e fantasias
Trazendo a miragem dos teus olhos aos olhos meus
São tuas palavras que correm soltas pelo vento
Em ventanias elevando as folhas, a areia da praia
Formando as ondas na superfície das tuas pegadas

Um corpo moreno de sol em adjetivos plenos
Sob os guarda-sóis com o dia a pino
Palavras buscando palavras
Perdidas numa tardia praia deserta
Recolhendo palavras como conchas vazias

Criam vida, rebeldia e denunciam
Que o amor aconteça antes da morte
Aprisione-as antes que tardia em poesias
Antes que tarde seja como morrer de amor
Pois se morro em palavras, não te digo

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pintassilgo


Pintassilgo, pintassilgo
Pinta em seguida o amanhecer
Colorindo-o com todas as cores
Mas não cante ainda
Fazendo a noite se calar
E a cantiga do silêncio se abster

Pintassilgo, pintassilgo
Pintalgando o negrune do céu
Deixa fluir da lua o brilho
Refletindo em tuas asas negras
O lume reluzente das estrelas


Pintassilgo, pintassilgo
Gorjea feito um pintarroxo
Cantando em suave trinado
No alvorecer do novo dia
O segredo de ser feliz

Pintassilgo, pintassilgo
Pousa na soleira da janela
Anunciando o raiar da manhã
Desperta na mulher que dorme
No dorso o verde das montanhas
No ventre germina o calor do sol

Pernas sem rosto


As pernas passam
Tão apressadas pela rua
Como num jogo de palitos
Tirando a sorte
Corpos em inércia
Pensamento imóvel
Cabeças sem rosto
Olhos atentos à direção
Olhar sem sentido
O obscuro dia do amanhã
Algumas pernas a mais ou a menos
Novas, móveis, paralisadas, inexistentes
Misturam-se todas no amanhã
São pernas apressadas buscando a vida

sábado, 11 de setembro de 2010

O longe que existe


Num tempo tão longe de tê-la
Pela distância que sobra entre dois corpos
Pelas tantas paisasgens alegres ou tristes
Talvez os inúmeros amanheceres mais fiéis
Que os anoiteceres foram repousantes
Percebo no insistente esquecimento
Entre nós ficou tão longe
O longe que não é saudade
O longe como um lugar que existe
Um lugar como a vida que nos separa

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Praia dos anjos


Hoje resta o que reservo
Em silêncio apenas observo
Diante dos olhos a vida
E a incerteza sobre a verdade

Outrora sobre a areia branca
Um castelo sem tranca
Repleto de sonhos e dormida
Sem tempo de adversidade

Inocente acuidade cristalina
Transparente musselina
Tremulando sob a onda
A fina areia branda

Num meio-tempo sem tempo
Numa praia sem nome no Olimpo
Possívelmente a dos Anjos
Porventura a dos arcanjos

Lá te encontro sem nome
Segurando a mão no andaime
No muro da minha fortaleza
Num gesto de sutileza

Por onde andará esse rosto
Por entre o labirinto em desgosto
O tempo sem tempo, sem vida
Fez divergente o meu destino

Nesse idílio diante do mar
Na utopia de ser feliz
O destino irá consumar
Enquanto vivo o que não fiz

No momento do alvorecer
Emergindo do mar o sol nascente
Escrevo esse verso poente
No caminho bifurcado carecer