sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Pelas palavras


As palavras que ontem voavam soltas
Sem sentido como a vida esguia
A vontade da alma quando o corpo seguia
Estas mesmas palavras aguçando o presente

Agrupando-se, declarando a tua falta,
impunemente...
Denunciam sem lógica distância o teu amor
N'algum lugar extremo, no vazio das minhas mãos
Rebeldes palavras num jogo de frases em nãos

Formando um sentimento de vida própria
Represando águas, refletindo a tua ausência
Numa superfície de sinônimos da minha imagem
Reescrevendo as gotas de chuva sobre a tez
Mesclando-as em lágrimas tais poesias e canções

Criando aos milhares os meus sonhos e fantasias
Trazendo a miragem dos teus olhos aos olhos meus
São tuas palavras que correm soltas pelo vento
Em ventanias elevando as folhas, a areia da praia
Formando as ondas na superfície das tuas pegadas

Um corpo moreno de sol em adjetivos plenos
Sob os guarda-sóis com o dia a pino
Palavras buscando palavras
Perdidas numa tardia praia deserta
Recolhendo palavras como conchas vazias

Criam vida, rebeldia e denunciam
Que o amor aconteça antes da morte
Aprisione-as antes que tardia em poesias
Antes que tarde seja como morrer de amor
Pois se morro em palavras, não te digo

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pintassilgo


Pintassilgo, pintassilgo
Pinta em seguida o amanhecer
Colorindo-o com todas as cores
Mas não cante ainda
Fazendo a noite se calar
E a cantiga do silêncio se abster

Pintassilgo, pintassilgo
Pintalgando o negrune do céu
Deixa fluir da lua o brilho
Refletindo em tuas asas negras
O lume reluzente das estrelas


Pintassilgo, pintassilgo
Gorjea feito um pintarroxo
Cantando em suave trinado
No alvorecer do novo dia
O segredo de ser feliz

Pintassilgo, pintassilgo
Pousa na soleira da janela
Anunciando o raiar da manhã
Desperta na mulher que dorme
No dorso o verde das montanhas
No ventre germina o calor do sol

Pernas sem rosto


As pernas passam
Tão apressadas pela rua
Como num jogo de palitos
Tirando a sorte
Corpos em inércia
Pensamento imóvel
Cabeças sem rosto
Olhos atentos à direção
Olhar sem sentido
O obscuro dia do amanhã
Algumas pernas a mais ou a menos
Novas, móveis, paralisadas, inexistentes
Misturam-se todas no amanhã
São pernas apressadas buscando a vida

sábado, 11 de setembro de 2010

O longe que existe


Num tempo tão longe de tê-la
Pela distância que sobra entre dois corpos
Pelas tantas paisasgens alegres ou tristes
Talvez os inúmeros amanheceres mais fiéis
Que os anoiteceres foram repousantes
Percebo no insistente esquecimento
Entre nós ficou tão longe
O longe que não é saudade
O longe como um lugar que existe
Um lugar como a vida que nos separa

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Praia dos anjos


Hoje resta o que reservo
Em silêncio apenas observo
Diante dos olhos a vida
E a incerteza sobre a verdade

Outrora sobre a areia branca
Um castelo sem tranca
Repleto de sonhos e dormida
Sem tempo de adversidade

Inocente acuidade cristalina
Transparente musselina
Tremulando sob a onda
A fina areia branda

Num meio-tempo sem tempo
Numa praia sem nome no Olimpo
Possívelmente a dos Anjos
Porventura a dos arcanjos

Lá te encontro sem nome
Segurando a mão no andaime
No muro da minha fortaleza
Num gesto de sutileza

Por onde andará esse rosto
Por entre o labirinto em desgosto
O tempo sem tempo, sem vida
Fez divergente o meu destino

Nesse idílio diante do mar
Na utopia de ser feliz
O destino irá consumar
Enquanto vivo o que não fiz

No momento do alvorecer
Emergindo do mar o sol nascente
Escrevo esse verso poente
No caminho bifurcado carecer

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Desencontro de almas


O coração pulsa plangente
Que a saudade persiste latente
Na alternância do sol e da chuva
No sabor o azedo e o doce da uva

A ilusão reclusa dos amores
Cravando no chão os rancores
Com raízes profundas daninhas
Para resistir solitário as ventanias

Nos sonhos passou a amada
Olhar perpassando o público
Malabaris por um amor idílico
Perdido na longa caminhada

Tão ansiada que não a tenho
Fez-se de amada por si mesma
Engano meu a esperança prisma
De fadada sorte nem sou advinho

Sequer a felicidade passou a porta
Circum-navegou a profetizada amada
E o amor em sangradouro pela aorta
Palidamente restou-me a deriva

Não existe paz no desencontro
Pois sei, mas resisto em claustro
Na insistente procura do não acharás
O amor que procurei ao Deus-dará

Nada importa se resisto ao tempo
O quanto de desespero e solidão
Nada será maior que o sofrimento
Dessa ausência em mim

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A tua presença


Caindo a folha suave pelo vento
Como se acenando dissesse adeus
Num desatino segundo em mim desperta
Que os momentos passados já não são meus

Que a saudade que desenha sobre a água
Os finos traços do teu meigo rosto
Num leve ondular do espelho ao meu gosto
De a expressão da esperança do teu sorriso

Mas o vento da solidão nas minhas horas
Num frêmito nos teus cabelos realçados
Entre fios negros reluzindo estrelas
Declinando as pálpebras como se oras

Que assim o seja teu aroma no ar
Numa melodia de acordes aflautados
Todas as cores brandas das aquarelas
Num sinal da cruz a nos abençoar

Esquecido sou nas horas do tempo
Que um trevo nas páginas do livro
Separou as vidas entre os capítulos
E a cada recomeço num contratempo

Escritos na linha da vida e da morte
A dupla linha na palma das nossas mãos
Como a imutável órbita do sol e da lua
O destino e os amores à mercê da sorte

Alvorecer-me-ia em múltiplos pseudônimos
Amando-te nas múltiplas mulheres diferentes
Nas noites sem luar e em cada novo amanhecer
Despertando-te arejada e sem termos

Mas olhando teu retrato imóvel, sem desnível
Transborda-me que preciso da lembrança
Para saber-te muitas, orvalhada e imprevisível
Obscureço a tua imagem para sentir tua presença

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A flor rosada



Sobre a mesa uma rosa
Com espinhos como a vida
Aos poucos desidrata no seu tempo
O vento sopra carregando as pétalas

(Estou mudando de residência.
Brevemente estarei com as mensagens
atualizadas).

Uma estória dentro da concha



Em nostalgia a tarde cai
A chuva chorando devagar
Sobre a areia só o vazio
Dos teus passos nem sinais

O tempo compassando as ondas
Saudades de uma breve estória
Do vento passando em memória
Noutros tempos de horas sem fim

Hoje os pensamentos vão e voltam
Como a alternância dos dias e das noites
Quando morrendo na tarde cai o sol
Na triste solidão da uma lembrança

Um feito amor bálsamo e alegria
Sangrando amor de dor e agonia
Um amor soluçando ao coração
Com medo de amar um desamor

Pelo tempo um desencontro
Num tempo sem tempo de amar
Atento a concha sobre o ouvido
Sentindo os teus olhos sobre o mar

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Manhã


Ilumina
A noite se desfaz na intensa claridade
Festivos chilreios na acuidade
Trazendo o cheiro da manhã
Clareia
Revelando o corpo que seduz
Suaves traços a meia-luz
Salientes no enlevo do alvorecer
Imagina
Tua ingenuidade da infância
Crescente vigor da exuberância
No tempo espôntaneo de ser
Germina
Qual velho jardineiro que insiste
Envelhecida mão que resiste
Regando perseverança nas manhãs
Orvalha
Na terra seca e nas ervas daninhas
Sem pousada para as andorinhas
Disformes canteiros de um jardim
Floreia
A semente da paixão latente
A saudade do beijo renitente
Nascente desejo que não tem fim
Anoitece
Tão próximo o coração em ciranda
Macia pétala de pele branda
Transbordas perfumando o ar
Sacia
Na pequena taça de essência
A Divina oferenda me acracia
Tempo da sutil beleza de amar
Macia
Ilógica harmonia entre duas bocas
Ruborizado desejo entre vozes roucas
Cerrando os olhos transbordando

domingo, 21 de março de 2010

Aos pés da montanha



Como é longa e curta essa estrada
Morrendo aos pés da montanha
Plena de nuances, curvas e obstáculos
Vida de viver com vontade tamanha

Alguns param sem uns poucos passos
Ao longo desse caminho que todos começam
O caminho do meio para outros lassos
Há os que a dor de uma saudade carregam

Aos magos que revelam a realidade
Viver será sempre a maior magia da vida
Ainda uns poucos convivem com a verdade
Há outros tantos que a rodeiam com amurada

A estrada segue o próprio destino
Margeada pelo verdejante campo
Por vezes rasteira sem descortino
Entretantos maturando no seu devido tempo

Pelo corpo os ventos cortantes
Os pés sobre o solo árido
Entre tantos passantes
Caminhas sozinho sem alarido

No vespertino despertar da noite
Dentre as estrelas o silêncio
A solidão entre as mãos em açoite
Aos pés da montanha o prenúncio

No final da longa estrada do ter
Para cada ser um ventre materno
No tempo de pensar em ser
Galgar a montanha rumo ao eterno

sexta-feira, 5 de março de 2010

Lágrimas



Lágrimas que escorrem no rosto
Como cristais...
Como ais...
Tem gosto de sal
Transparece o lado oposto
Deixando ver o bem e o mal

Tão cristalinas em maremoto
Aos milhares refletindo o arco-iris
Na beira do cais...
Recordações demais...
Comovidas por estarem vestidas de roto
Outras envenenadas de intenções vis

Lágrimas que encontram lágrimas
Muito além do mais...
Jamais, jamais...
Outras chorando pelo desencontro
Algumas sorriem de si mesmas
N'outro tempo triste no espectro

Lágrimas como o sal da terra
Lembranças pessoais...
Navegas arrais...
Temperadas pelo o sal do corpo
No oceano de lágrimas de guerra
Lacrimejando na hora do escopo

Dos santos olhos goteja o sangue
A rubra flor-de-lis...
Róseas ou azuis dos miosótis...
Da persistente face da miséria humana
O ciclo de vida se perdendo no mangue
A gana do ter rompendo a membrana

A noite encobre o dia de breu
Sopro de amarilis...
Nós, comum de dois...
Tuas lágrimas reluzem no céu
Sentindo as estrelas em camafeu
Tão presentes com teu corpo em apogeu

Sentir o doce sabor da lágrima
No oásis...
Na luz da íris...
Num pranto sufocado de desejo
Chorando essa vontade desestima
(Bordejo com as estrelas caidas pelas ruas)
Um nome na fria noite rumorejo

terça-feira, 2 de março de 2010

O caminho



A luz do dia cede
Em metamorfose perfeita
Renascendo em noite
Trazendo a sede na boca
Na garganta a voz rouca
No desejo, o amor imperfeito
Vislumbrando o céu
Anoitecendo a alma
No silêncio das estrelas
Um coração pulsando
No caminho do infinito

segunda-feira, 1 de março de 2010

O tempo de viver


Corre o suor pela fronte
As mãos transpirando gélidas
Sobre a corda tão bambas

Sob os olhares do mundo pronto
Veste a pele transformada
Numa armadura de vitórias

Nos olhos delineando as cores
O rubro salientando os lábios
Na boca desabrochando o riso

Ocultas sob a face da beleza
A face oculta do medo
Os medos ocultos na mesma face

Na tua imagem no espelho
Vestindo delineando o corpo
Os pés equilíbrando em saltos

Tão plena de lembranças
Emoções e desejos apegada
Antigas emoções latentes

A bolsa plena de lembranças
Necessaires e afetivas recordações
Analgésicos para amores passados

Deslizas por iguais caminhos
De um dia para o outro
Indispostas em perder o passado

Gravando as mensagens no fim do dia
Saudando fielmente o ano velho
Caminhas lentamente pela vida

Com os olhos fixos no retrovisor
No passado sem despedida
Estática no tempo do medo

No futuro há somente o passado
No presente apenas um corpo
E a ilusão de viver a vida

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Para depois da chuva


Por fim surgiram as estrelas
Como fagulhas no breu
Brilhantes, cintilantes
Faiscantes brilhantes no céu

Muitas foram as noites de chuva
Chovendo a chuva pela noite afora
Extrapolando o limite da sede
Ultrapassando o nascer da aurora

Em plena noite tão nítida surge
Tão timidamente o nascer da lua
Resistente como se envergonhada
Dos olhos inchados de chover a chuva

Ou terá sido o suor do teu corpo
Encharcando o lençol da cama
Ou terás sido tal qual a lua
Chovestes por noites sobre a fronha

Tu e a lua resistem perante as estrelas
Uma troca de olhares constrangidas
Como num gesto tão humanamente simples
Olhar nos teus olhos diante do espelho

Tu e a lua diante das estrelas
Numa troca de olhares tão cúmplices
Sem um gesto divinamente simples
Inspiram tantos poetas depois da chuva

Se todas fossem Cecília


Teu pensamento fica no tempo
Renovando a cada sensação descrita
Como se fora hoje com todas as cores

Tua inspiração renasce como as flores
Aquelas que do teu jardim não foram colhidas
E em seus versos exalam o teu perfume

Trazes em tuas mãos a transparente alma
Aos muitos olhos que não vistes
Almas que não acreditam que tu existes

"Teu bom pensamento longinquo me emociona"
Torna-me menos ignorante de tudo que és
Mas resigno-me do todo que te eterniza

Teu ensinamento continuará pelo tempo
Entre as palavras escolhidas com maestria
Em cada descrição perfeita, humildemente, direi:

-"O vento do teu espírito soprou sobre a vida
E tudo que me era efêmero se desfez
E ficaste só tu, que és eterna..."

Teu canto existe a cada instante
E a tua poesia está completa
"Não és alegre, nem és triste",
Tu és eternamente poeta.

sábado, 23 de janeiro de 2010

As horas envelhecidas


Sobre a mesa repousam os óculos
Com olhar fixo em minha direção
As lentes manchadas pelo amarelo
Não apenas pelo tempo passado
Ou a tinta desbotada sobre os pápeis
Aquém das muitas horas insones
Em que a vida seguiu seu curso
Inadvertidamente vazio de inspiração
Talvez seja o peso sobre os ombros
Por tantos anos de emoções
Fixo os olhos no horizonte
Numa contagem adversa das horas
Sem pavor se o passado é maior
Maior que o futuro a ser vivido
Das muitas horas repletas de sonhos
Algumas delas ainda continuam sonhando
Outras horas foram esquecidas
Importa as novas que nascerão
Preciosas em viver a cada segundo
Serão saboreadas como a um raro vinho
Das uvas frescas que foram colhidas
Ainda conservando o orvalho das manhãs
Nos dias passantes entre as estações
Estarei mais próximo do sonho eterno
Redescobrindo os segredos de outrora
Perolizadas entre as horas envelhecidas

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Densa neblina


O horizonte se desfez na alvura
Na densa neblina que paira
Sobre todas as coisas criadas

Cores vivas e opacas empalideceram
Mantas brancas cobriram as encostas montanhosas
Suavemente desapareceram na somatória das cores

Os caminhos paralelos já não se fazem infinitos
Nem os cruzamentos para um eventual encontro
Restamos sós e a pouca paisagem que nos rodeia

Restamos nós e a pouca imagem de nos mesmos
O que nos dá prazer e em outro instante nos causa dor
Todos os amores, rancores, a face oculta que nos odeia

A imagem efêmera hiberna sem o espelho
Flutuando divinamente entre as nuvens
Nos confrontando com o inevitável fim

Na densa neblina de nós mesmos
Marcamos esse breve encontro
O ponto de partida para um novo recomeço

Em verdade a poesia


Em verdades escrevi o passado
Pois feito e sacramentado ficou
Em verdades escrevo o presente
Pois fato, dia-a-dia, sacramentado está

Em verdades escreverei o futuro
Pois se em viver mentiras
Nada restará ao presente
E o passado me negará

Traduzo os momentos em poesia
Pois os momentos existem
E nem é ilusória a poesia
Traduzida em cada palavra

Por ter uma face oculta
Que há em todas as pessoas
Tenho um pouco das vidas alheias
E nas vidas alheias há um pouco de mim

O rio da vida


Como vertendo para a vida
As lágrimas do primeiro choro
Guardado no instante nascente
Represada no insípido berço

Minando na alvura do papel
Como um leito de areia fina
Nasce a mistura divina
Cristalina água pura

Dos cumes das montanhas
Com a pureza das pedras preciosas
Faz nascer a vida em suas bordas
Vindo ao mundo empelicado para a morte

Vislumbrando o início das corredeiras
Murmurando canções entre as pedras
Assiste o verde por entre a densa mata
O ciclo da vida que nela se faz cúmplice

Ao encontro de outras vertentes
Unindo-se em outras deságuas
São pés de amoras, borboletas e pássaros
Em sinfonia ao som em natureza

Em vertiginoso desafio aos obstáculos
Erosando as margens sobre as pedras
Abre-se o véu em cachoeiras
Cristais em gotas coloridas de arco-íris

Sob o sol que evapora suas preces
Segue pelos vales e planícies
Irrigando as terras, as plantações
Saciando a sede dos animais

Abranda as aves nos raios de sol
Envolvendo os peixes colorindo o leito
Segue como rio curioso beirando as cidades
Recebendo o veneno daqueles que a sede sacia

Ressentes em teu leito de agonia
Densamente margeando as encostas
Lembras como o perfume era inodoro
Tão ingenuamente conduzindo a vida

O mar já não te auxilia em vida
Apenas o acolhe nos braços de areia
Como um filho morto pela avareza
Morrendo de tanta humanizada ignorância

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A vida da poesia


Encontre uma inspiração em silêncio
Mesmo que o cansaço na beira da estrada
Quando no sol arder a pele e a alma
E o tempo seguir tuas palavras escritas

E quando a chuva passar pela vida
E somente o céu e o mar ficarem
Tu, teu sonho, o sol, a chuva e o tempo
Em passaredo passarem sem poesia

Pois a cada página de palavras imóveis
Caladas, silenciosas e inertes
Aguardando indiferentes a tua ordem
Te restarão surdas, caladas e intatas

Repousando entre as capas de um dicionário
No fundo do velho baú empoeirado
Como fincadas nas rochas fartas de limbo
Se escondendo de tua agonia, corpo e vida

Indiferentes as tuas dores, aos teus amores
As tuas jóias raras ou raras de brilhantes e rubis
A poesia continuará esperando, esperando...
Até que todos os esqueletos saiam do teu armário

E no curso insone da noite enluarada
Amanheças fria e coberta de úmida neblina
Todas as palavras estarão gotejadas em tua retina
Com o teu olhar descobrindo a eleita entre as mil faces

Neste convívio despertas após árdua caminhada
Que as palavras correm no rio de labirintos em tuas veias
E a poesia estará diante dos teus olhos como desejas
Como deseja a poesia em ter reconhecida a própria vida

O tempo da mente


Se és auto-suficiente em tuas lamúrias
E o tempo boceja em tua sonolência
A vida fica lá fora, nas ruas, apenas observando
Como os rios para o mar num caminho sem volta

Se em tua clausúra nem se dá conta
Andando vestida de branco pela casa escura
Em cada sinal o pânico em plena liberdade
Levantas muralhas em torno da mente

Loucura, loucura, loucura
Essa abstinência da vida em existência
No alto da torre em plena demência
Nem se dá conta que moras no próprio túmulo

A mente parada no tempo, recriando vidas alternativas
E tu caminhas por outras vias em paisagens eletrônicas
Amores cibernéticos, amigos se excluindo em retiro
Cais da torre suicida, a liberdade é o tempo da mente

O tempo se vai com inveja de ti, sem poder parar
Sem poder esquecer o passado, estar no presente
Num caminho incessante rumo ao futuro
Mas ele ri, sorrateiramente, levando consigo a tua vida


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O amor destilado


Ficarias magra para atender aos pedidos?
Quem te pede tal leveza?
Certamente não te apalpa os ossos.
Nem se ausenta o teu peso sobre o corpo.
Como te amar sem tuas rugas?
Num abdómen sem expressão
Sem dobras no relevo.
As pessoas se transformam
Se transformando de si mesmas
Implantam cérebros de silicone
Se inflam de botoxes de esperança
Fazem lipo aspirando as amarguras
de suas entranhas até sangrarem
Para atingirem a própria inexistência
Depois de tantos banhos de espuma
Muitas das fragâncias se passam em pelo
E a cada dia me desoriento
Como te seguir se na multidão perco o faro?
Entre tantos padrões de beleza em série
Tantas são as variações das essências
Essencialmente elaboradas com esmero
Num laboratório chamado esperança
E eu, esse animal primitivo, fico disperso
Se, e quando, te encontro
Te abraço sinteticamente
Com um beijo destilado

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Simplicidade


Sou um poeta que não necessita de amores
A mim basta uma lua e algumas estrelas

Não serei o poeta de um mundo maldito
Onde mais se destrói e se desarmoniza

Serei sim o poeta de inspiração estelar
Assistindo o verde e o mar findando

Não sou um poeta de inspiração entristecida
Apenas observo os malditos acabarem com o mundo

Não serei o poeta caduco de um mundo acabado
A mim basta uma lua e algumas estrelas

Serei um poeta na simplicidade do que penso
O restante é efêmero e muita cumplicidade

Escuridão


A noite tem o brilho da lua
Solidariamente taciturnos
Os cães ladram nas ruas

Como se unidos pudessem
Amanhecer a noite em luz do dia
Afuguentando todas as sombras

Não se importando com o tempo
São as sombras do passado
Que obscurecem o presente

Continuamente como lembranças
Percorrendo as noites e os dias
Como a inversão plena da imagem

E no momento oportuno do destino
Agiganta-se sombriamente sobre a imagem
Deixando apenas o vazio sem sombras