sábado, 23 de janeiro de 2010

As horas envelhecidas


Sobre a mesa repousam os óculos
Com olhar fixo em minha direção
As lentes manchadas pelo amarelo
Não apenas pelo tempo passado
Ou a tinta desbotada sobre os pápeis
Aquém das muitas horas insones
Em que a vida seguiu seu curso
Inadvertidamente vazio de inspiração
Talvez seja o peso sobre os ombros
Por tantos anos de emoções
Fixo os olhos no horizonte
Numa contagem adversa das horas
Sem pavor se o passado é maior
Maior que o futuro a ser vivido
Das muitas horas repletas de sonhos
Algumas delas ainda continuam sonhando
Outras horas foram esquecidas
Importa as novas que nascerão
Preciosas em viver a cada segundo
Serão saboreadas como a um raro vinho
Das uvas frescas que foram colhidas
Ainda conservando o orvalho das manhãs
Nos dias passantes entre as estações
Estarei mais próximo do sonho eterno
Redescobrindo os segredos de outrora
Perolizadas entre as horas envelhecidas

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Densa neblina


O horizonte se desfez na alvura
Na densa neblina que paira
Sobre todas as coisas criadas

Cores vivas e opacas empalideceram
Mantas brancas cobriram as encostas montanhosas
Suavemente desapareceram na somatória das cores

Os caminhos paralelos já não se fazem infinitos
Nem os cruzamentos para um eventual encontro
Restamos sós e a pouca paisagem que nos rodeia

Restamos nós e a pouca imagem de nos mesmos
O que nos dá prazer e em outro instante nos causa dor
Todos os amores, rancores, a face oculta que nos odeia

A imagem efêmera hiberna sem o espelho
Flutuando divinamente entre as nuvens
Nos confrontando com o inevitável fim

Na densa neblina de nós mesmos
Marcamos esse breve encontro
O ponto de partida para um novo recomeço

Em verdade a poesia


Em verdades escrevi o passado
Pois feito e sacramentado ficou
Em verdades escrevo o presente
Pois fato, dia-a-dia, sacramentado está

Em verdades escreverei o futuro
Pois se em viver mentiras
Nada restará ao presente
E o passado me negará

Traduzo os momentos em poesia
Pois os momentos existem
E nem é ilusória a poesia
Traduzida em cada palavra

Por ter uma face oculta
Que há em todas as pessoas
Tenho um pouco das vidas alheias
E nas vidas alheias há um pouco de mim

O rio da vida


Como vertendo para a vida
As lágrimas do primeiro choro
Guardado no instante nascente
Represada no insípido berço

Minando na alvura do papel
Como um leito de areia fina
Nasce a mistura divina
Cristalina água pura

Dos cumes das montanhas
Com a pureza das pedras preciosas
Faz nascer a vida em suas bordas
Vindo ao mundo empelicado para a morte

Vislumbrando o início das corredeiras
Murmurando canções entre as pedras
Assiste o verde por entre a densa mata
O ciclo da vida que nela se faz cúmplice

Ao encontro de outras vertentes
Unindo-se em outras deságuas
São pés de amoras, borboletas e pássaros
Em sinfonia ao som em natureza

Em vertiginoso desafio aos obstáculos
Erosando as margens sobre as pedras
Abre-se o véu em cachoeiras
Cristais em gotas coloridas de arco-íris

Sob o sol que evapora suas preces
Segue pelos vales e planícies
Irrigando as terras, as plantações
Saciando a sede dos animais

Abranda as aves nos raios de sol
Envolvendo os peixes colorindo o leito
Segue como rio curioso beirando as cidades
Recebendo o veneno daqueles que a sede sacia

Ressentes em teu leito de agonia
Densamente margeando as encostas
Lembras como o perfume era inodoro
Tão ingenuamente conduzindo a vida

O mar já não te auxilia em vida
Apenas o acolhe nos braços de areia
Como um filho morto pela avareza
Morrendo de tanta humanizada ignorância

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A vida da poesia


Encontre uma inspiração em silêncio
Mesmo que o cansaço na beira da estrada
Quando no sol arder a pele e a alma
E o tempo seguir tuas palavras escritas

E quando a chuva passar pela vida
E somente o céu e o mar ficarem
Tu, teu sonho, o sol, a chuva e o tempo
Em passaredo passarem sem poesia

Pois a cada página de palavras imóveis
Caladas, silenciosas e inertes
Aguardando indiferentes a tua ordem
Te restarão surdas, caladas e intatas

Repousando entre as capas de um dicionário
No fundo do velho baú empoeirado
Como fincadas nas rochas fartas de limbo
Se escondendo de tua agonia, corpo e vida

Indiferentes as tuas dores, aos teus amores
As tuas jóias raras ou raras de brilhantes e rubis
A poesia continuará esperando, esperando...
Até que todos os esqueletos saiam do teu armário

E no curso insone da noite enluarada
Amanheças fria e coberta de úmida neblina
Todas as palavras estarão gotejadas em tua retina
Com o teu olhar descobrindo a eleita entre as mil faces

Neste convívio despertas após árdua caminhada
Que as palavras correm no rio de labirintos em tuas veias
E a poesia estará diante dos teus olhos como desejas
Como deseja a poesia em ter reconhecida a própria vida

O tempo da mente


Se és auto-suficiente em tuas lamúrias
E o tempo boceja em tua sonolência
A vida fica lá fora, nas ruas, apenas observando
Como os rios para o mar num caminho sem volta

Se em tua clausúra nem se dá conta
Andando vestida de branco pela casa escura
Em cada sinal o pânico em plena liberdade
Levantas muralhas em torno da mente

Loucura, loucura, loucura
Essa abstinência da vida em existência
No alto da torre em plena demência
Nem se dá conta que moras no próprio túmulo

A mente parada no tempo, recriando vidas alternativas
E tu caminhas por outras vias em paisagens eletrônicas
Amores cibernéticos, amigos se excluindo em retiro
Cais da torre suicida, a liberdade é o tempo da mente

O tempo se vai com inveja de ti, sem poder parar
Sem poder esquecer o passado, estar no presente
Num caminho incessante rumo ao futuro
Mas ele ri, sorrateiramente, levando consigo a tua vida


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O amor destilado


Ficarias magra para atender aos pedidos?
Quem te pede tal leveza?
Certamente não te apalpa os ossos.
Nem se ausenta o teu peso sobre o corpo.
Como te amar sem tuas rugas?
Num abdómen sem expressão
Sem dobras no relevo.
As pessoas se transformam
Se transformando de si mesmas
Implantam cérebros de silicone
Se inflam de botoxes de esperança
Fazem lipo aspirando as amarguras
de suas entranhas até sangrarem
Para atingirem a própria inexistência
Depois de tantos banhos de espuma
Muitas das fragâncias se passam em pelo
E a cada dia me desoriento
Como te seguir se na multidão perco o faro?
Entre tantos padrões de beleza em série
Tantas são as variações das essências
Essencialmente elaboradas com esmero
Num laboratório chamado esperança
E eu, esse animal primitivo, fico disperso
Se, e quando, te encontro
Te abraço sinteticamente
Com um beijo destilado

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Simplicidade


Sou um poeta que não necessita de amores
A mim basta uma lua e algumas estrelas

Não serei o poeta de um mundo maldito
Onde mais se destrói e se desarmoniza

Serei sim o poeta de inspiração estelar
Assistindo o verde e o mar findando

Não sou um poeta de inspiração entristecida
Apenas observo os malditos acabarem com o mundo

Não serei o poeta caduco de um mundo acabado
A mim basta uma lua e algumas estrelas

Serei um poeta na simplicidade do que penso
O restante é efêmero e muita cumplicidade

Escuridão


A noite tem o brilho da lua
Solidariamente taciturnos
Os cães ladram nas ruas

Como se unidos pudessem
Amanhecer a noite em luz do dia
Afuguentando todas as sombras

Não se importando com o tempo
São as sombras do passado
Que obscurecem o presente

Continuamente como lembranças
Percorrendo as noites e os dias
Como a inversão plena da imagem

E no momento oportuno do destino
Agiganta-se sombriamente sobre a imagem
Deixando apenas o vazio sem sombras

domingo, 29 de novembro de 2009

O amor


Diante dos olhos dormes serena
Renascendo o amor dentro de mim
Despertas um coração pleno de ternura
Sobre o leito a senhora dos sonhos

Com encantamento te assisto
Teu corpo desabrochando em flores
São pétalas em luzes multicores
São os teus aromas e segredos

Te transformando em meu jardim
Com o olhar nos canteiros de flores
Meu descompassado coração
Percorre e mergulha, profundo e latente

Em teu mar bravio a tempestade
Sussurando os teus desejos
No silêncio do teu querer dizes tudo
Enquanto somas os pedaços de mim

Todos os teus medos e segredos
Desvendando o meu anoitecer
Que não me basto e te preciso
Te preciso para ouvir as estrelas

Te preciso para salvares de mim
Alcançar as minhas montanhas
Perder-me em longos abraços
Acordar sentindo saudade ti

Resgatar-te dos meus sonhos
Tornando-a em minha realidade
Reconhecê-la em todas as estações
Preciso encontrar-me no teu amor sem fim

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Tempo do medo


Sobre o frio cristal transparente
Como o vento por entre os dedos
A mão do tempo, no presente,
Cria a imagem dos segredos

Ilusória idéia de juventude imortal
Onde as horas se somam infindas
Tornando o medo sobrenatural
Contando as relíquias escondidas

Estar só e rodeado pelo medo
Diante da morte nascido para a vida
Nascido para, tarde ou cedo,
Termos a eternidade concebida

Se morremos no amor a cada instante
A cada dúvida, na falta de beijos
Se nascemos no amor extravasante
Na dor incontida, sob todos os desejos

Nascer e morrer em cada verdade
Dos momentos transitórios, a essência
O medo efêmero que se desfaz
Na eternidade a consciência

Amar sem razão para amar
O amor em sua própria transcendência
Como as estrelas que não vemos,
Em própria resplandecência

Restarás eterno...

Suave anoitecer


Com o passar das horas do dia
A tarde morre aos poucos
Como a esperança que morria
Na noite taciturna dos loucos

As nuvens sobre as montanhas
Na escuridão ocultando as cores
Nebulosas e disformes obtinhas
Da mente lembranças e dissabores

Profundas recordações do passado
Como as raízes de um baobá
Não digas que o passado interdirá
Se no futuro nada há consumado

Eis as brancas páginas do presente
Como o branco muro nas ruas
Sem nada escrito transcendente
Como as fases da lua, continuam tuas

Ao lado teu fico calado
Silêncioso entre as palavras ditas
No mágico interlúdio imaculado
Anoitece sob as luzes eremitas

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Na janela do tempo


Na luz tênue refletida
A saudade aérea e rarefeita
Consome um naco e tanto
De uma parte de mim
Apago a luz e não verei

Pior que a insistência do vazio
Sob o manto da escuridão
Qual indecifrável esquecimento
Ser a dor constante enfim
Acendo a luz e não sentirei

Os lábios confessarão o segredo
Que na musicalidade de um beijo
O coração descompassa o ritmo
Buscando a harmonia do desejo
Tapo os ouvidos e não escutarei

Almas se mesclam em energia
Plenas no silêncio das palavras
Muito além das carícias que enseja
O instante absoluto do momento
Paro no tempo e não calarei

Sem limite de esperança
Na ansiedade da espera
Pudera o firmamento
Dissimulasse de jasmim
Sob a luz divina e findarei

Passante pelos vários mundos
Desvendando todos os segredos
No tempo que os manifestar
No curso dos teus sagrados dias
Sei, até lá saberias, mas eu não mais existirei

Pelas palavras


As palavras que ontem voavam soltas
Sem sentido como a vida esguia
A vontade da alma quando o corpo seguia
Estas mesmas palavras aguçando o presente

Agrupando-se, declarando a tua falta,
impunemente...
Denunciam sem lógica distância o teu amor
N'algum lugar extremo, no vazio das minhas mãos
Rebeldes palavras num jogo de frases em nãos

Formando um sentimento de vida própria
Represando águas, refletindo a tua ausência
Numa superfície de sinônimos da minha imagem
Reescrevendo as gotas de chuva sobre a tez
Mesclando-as em lágrimas tais poesias e canções

Criando aos milhares os meus sonhos e fantasias
Trazendo a miragem dos teus olhos aos olhos meus
São tuas palavras que correm soltas pelo vento
Em ventanias elevando as folhas, a areia da praia
Formando as ondas na superfície das tuas pegadas

Um corpo moreno de sol em adjetivos plenos
Sob os guarda-sóis com o dia a pino
Palavras buscando palavras
Perdidas numa tardia praia deserta
Recolhendo palavras como conchas vazias

Criam vida, rebeldia e denunciam
Que o amor aconteça antes da morte
Aprisione-as antes que tardia em poesias
Antes que tarde seja como morrer de amor
Pois se morro em palavras, não te digo

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A chuva e a flor


No jardim do amor
A chuva sobre a flor
Cai como lágrimas
Gotejando sobre a dor

Nossos caminhos cruzados
Num breve encontro de mãos
Tantas palavras não ditas
Descritas nos gestos de adeus

Infinito momento de breu
Se guardando para qualquer dia
Um outro destino, outro acontecer
Distantes das paisagens inertes

Calam nos teus segredos
O amor e o ódio pelo avesso
Que na saudade principia
O solitário caminho do eu

Na ventania da paixão
Esse tão descuidado coração
Fechou os olhos da razão
Semeando no tempo a saudade

Agora de longe te assisto
Teu corpo banhado de sol
Todo esse amor te daria
Salvando minh'alma da agonia

Nesse jardim do amor
És a mais bela flor
A chuva cai entre lágrimas
Gotejando sobre a minha dor

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Poema Inacabado


Dos seus olhos ser o desejo
Da sua boca a infinidade dos beijos
Quisera meus lábios percorrer teu corpo
Em cada gosto ter o paladar do deuses

Seduzir-me com teus aromas
Ser teu Eros em tua perdição
Nesse desejo infindo
Ser teu poema inacabado

sábado, 10 de outubro de 2009

Meu coração


Quisera dar-te a dor de todos os meus ais
Todos os momentos de loucura e insensatez
As sensações do vento frio sobre a pele
Das buscas desgovernadas pelas noites

Quisera dar-te o vazio das noites insones
Do peito a solidão festiva de falsas emoções
Dos olhos a tua imagem disforme na neblina
Deixando-te transpassar como luz pelo corpo

Quisera dar-te todos os segredos nobres e pagãos
Um a um, desvendando teu nome lapidado em desejos
Enveredar-te nos campos insanos dos girassóis
Onde escrevo teu nome em vermelho sangue

Quisera dar-te a melhor das mentiras convincentes
Sabendo que em teu coração soarão como verdades
Apertando em minhas mãos a lâmina da falsidade
Felicitando-me, egoísticamente, por tamanha infelicidade

Quisera dar-te o meu coração, desfalecido e retalhado
Acostumado a pulsar doente pelos desejos platônicos
Deixá-lo em tuas mãos, recriá-lo em tua dimensão
Um coração vazio de segredos a espera do teu amor

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Imprescindível ( Mercedes Sosa )




O que pulsa no coração
Corre pelas veias
Transborda em lágrimas
Umedecendo a terra
A quatro mãos...
Celebrando o amor
Construindo a paz
Perpetuando a vida
Rumo a eternidade
Imprescindível...
A arte de viver
A vida com arte

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A solidão



Se a noite nos incomoda com doces lembranças.
Farfalham os lençóis sussurrando aos nossos ouvidos.
Não nos incomodemos se nossos braços buscam o abraço ausente.
Se a imperceptível melancolia nos incomoda com a insônia.
Não relutemos em dar boas-vindas a quem de longe chega.
Sejamos sinceros e solidários a esta rejeitada amiga.
Com mãos afetuosas estendidas a acolheremos em descanso.
Tenhamos o melhor de nossos corações em oferenda.
Sejamos francos em compreendê-la com carinho.
Se fomos felizardos de um destino do amor comum .
Nós sabemos o que nos inspira toda essa nossa confiança.
O mais sincero entre nós dois a reconhece das desventuras.
Pois, ora sabemos, ninguém é mais solitária que a solidão.
Essa insensível dor hospitaleira persistente de vazio.
Levantaremos os nossos braços entrelaçados num brinde.
Isso é o que nós torna sábios e sóbrios em autoreclusão.
Embeberemos nossas mágoas no alto teor das lágrimas.
Comemorando no silêncio o incontido desejo ser feliz.
E nesses momentos solitários lapidaremos as melhores palavras.
As que possam revelar todas as emoções transitórias do pensamento.
Sombreando nossos olhos no tempo de muitas páginas e ricas estórias.
Nem os papéis em branco faltarão em homenagem para um lindo poema.
Nesse único momento de criação, uma linda canção embalará o seu coração.
Deixando em devaneios as suas emoções transbordarem nas aventuras.
Nessa corajosa busca inconsequente da transparente e necessária solitude.
Com o coração em penitência, sua mão será o guia das doces orações.
Frase a frase, mesclando melancolia e mágoas em suas estrófes.
Serão como as súplicas de um reincidente aprendiz no amor.
Edificando com preces divinas o nosso mágico templo de contos e versos .
Consagrando aos céus a justa recompensa da necessária solidão.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

As imagens



No instante em que nos vemos.
Somos os espelhos de nós mesmos.
Traduzimos nos olhares reluzentes.
Na mesma frequência do que somos.

No instante em que nos vemos.
Somos dois nos espelhos opostos.
Perdidamente desejosos.
Do infinito labirinto de nós mesmos.

No instante em que nos vemos.
Nos tocamos em carícias no reflexo.
Num desejo mútuo instantâneo.
De nos termos e nos amarmos.

No instante em que nos vemos.
Somos pares cada qual em seu espelho.
Infinitamente amor ou ódio.
Seremos as eternas imagens.

No instante em que nos vemos.
Seguiremos nossas vidas em paralelo.
Com a intensidade do medo que nos distancia
E a luminosidade do amor que nos faz elo.

No instante em que nos vemos.
As mudanças do tempo nos farão sensíveis.
A cada ângulo morremos um pouco.
Paralelamente viveremos ao infinito.

No instante em que nos vemos.
Somos transparentes um ao outro.
Imagens e semelhanças dos pares
Viveremos fugitivos da escuridão.

No instante em que nos vemos.
Inseguramente saberemos
Que somente existiremos
Sob as luzes de nós mesmos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Uma poesia distraída



Uma ausência sem desculpas mas, que merece presença.
A presença de uma ausência consentida, ressentida.
Uma ausência esculpida de vazio.
Quebrando a continua presença da vida.
Aquilo que, naturalmente, não se admite mas, se permite no final.
Da eterna amizade fugidia, se esquivando das convenções.
Mesmo que, integralmente, a culpa seja minha.
Estar presente ao seu sorriso tímido e acusador.
Essa ausência de palavras, das prosas, de versos.
De bilhetes, dos dedos de prosa em conversa afora.
Como se impedindo o outonal das tardes no outono.
Tens razão, quando me culpas de não ser banal, de não ser cotidiano.
De não ter saudades do corriqueiro, da mesmice dos mesmos dias.
Cúmplices por essa saudade, saudades por sermos ausentes.
Talvez seja até mesmo aquela saudade de nós mesmos.
Das lembranças do que outrora fomos.
Dos nossos anseios do que no presente somos.
Do que seríamos em nossos sonhos em comum.
Nessa dinâmica compartilhamos da saudade do ausente.
O doce sabor da ausência de uma saudade carinhosa.
O sabor da saudade com o teor da ausência.
Com a sua falta vestes a sua presença.
De um tempo agora sem tempo.
Por todos os momentos que existimos juntos.
Quando ríamos de tudo e chorávamos por nada.
Dos muitos momentos, do ombro ao ombro, solidários.
Quando ríamos por nada e chorávamos por tudo.
Da ilusão os nossos olhares maravilhados.
Pelo fascínio de ter vivido a ilusão de cada instante.
Essa saudade que a cada momento insisto em reviver.
Como num suplício impedimento do cair das folhas.
Nessa querença desmedida de transpor-se ao tempo.
Quando o vazio é maior que o silêncio das palavras
Quando na ausência não te encontro e tropeço no nada.
Qualquer hora escrevo, descrevo essa saudade de você.
Num momento em que a saudade estiver ausente.
Te deixarei de presente uma poesia distraída.


domingo, 27 de setembro de 2009

A musa



Defronte aos olhos o mar extasiante
Tu és perfeita em harmônica natureza
"Quem pode ser infeliz diante de tanta beleza?"
Cruel distância que nos destina a ausência

Aos olhos meus que a tua imagem não alcança
Morna e mansa a tua brisa canta e não perfumas
As paisagens com teu semblante mesclado
Sorrindo a esperança de um amor divino

Teus versos clamam entre os sons
Das gaivotas festeiras ao ciclo das ondas
Ao sopro magestoso do vento
Flutuas como uma canção pelo ar

Vais em vida como numa canção de amor
A quatro mãos compomos em harmonia
Esta tua felicidade sinfônica reverencio
Com esta ode a senhora dos meus sonhos
A musa dos meus versos de amor

"Canção de amor"

São eternos seus momentos
São mágicos teus gestos
Das teclas, o branco e preto
Brando encanto nas oitavas

Silenciosamente pausas
Desejosos de harmonia
Nessa canção me perderia
Na musicalidade do teu corpo

Meu coração fica a mercê
Nas vibrações das cordas
Tatuo em minh'alma tuas clavas
Pedindo asilo em teu sentimento

Pelo teu amor divino
Sou teu anjo torto
Entrego o meu corpo
Meu par de asas

Em espírito murmuro a prece
Pelas mãos que fazem sonhos
Teu rosto em riso que aparece
Anunciando em versos meu destino

sábado, 26 de setembro de 2009

Brevidade



Adeus!
É o tempo...
Cedo para amar-te.
Tarde para ter-te.
Nessa brevidade da vida.
Levo um pouco de ti.
Deixo um pouco de mim.
Deste desencontro,
Nunca mais seremos os mesmos.
Passamos por este intervalo
Entre a vida e a morte.
Amando-nos, fazendo arte.


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Um dia o amor




Um dia
Entre tantos...
Entre si os olhares.
Divagando nas dúvidas.
Nas mudas reações.
A indecisão entre os corpos.
A pele molhada...
Corações aquecidos pelo sol.
Entre o sol, os nossos corpos e a chuva.
Clamando carícias, emitindo sinais.
Atentos olhos de brilho inquieto.
Alertando os rumores, os tremores
Incontidos desejos de amar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um grão de areia



O olhar quedou oblíquo
A êsmo os pés caminham
São as mesmas calçadas
Pela mesma areia
Insensíveis carícias das ondas
O toque suave da brisa
Não há no horizonte o azul
Mesclando ton sur ton
O mar azulado de céu
O céu azulado de mar
O mudo quebra-mar já não ensurdece
Nas ondas o som sobre o som
Deslizando sobre a areia
Apagando todos os rastros
Somente finda uma história
São as gaivotas festeiras
Um grão de areia
O cisco no olho
O olhar mareado
Essa maresia